DIRECTOR: JORGE LEMOS PEIXOTO  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Por puro tacticismo político, António Costa tem usado André Ventura como o seu ‘seguro de vida’. Ao dar-lhe palco, e muitas vezes elegê-lo como seu principal adversário nos debates parlamentares, ao introduzir habilmente na agenda da direita o ‘fantasma’ do Chega! e da suposta participação de Ventura num hipotético futuro governo liderado pelo PSD, Costa tem deixado o centro-direita mais entretido a discutir o tema do que propriamente a criar uma alternativa séria e credível aos olhos dos portugueses.

Enquanto isso, ou seja, enquanto a direita se deixa enredar nesta armadilha armada por Costa, e debate em praça pública as tais ‘linhas vermelhas’, o Chega! vai alegremente crescendo nas sondagens, consolidando-se como terceiro partido que já é desde as últimas eleições, chegando agora nos estudos de opinião aos 15 por cento, e ameaçando eleger uma bancada com mais de 30 deputados.

E se é verdade que, entretanto, o Chega! já ‘matou’ um CDS há muito moribundo, impediu que à direita, à exceção da Iniciativa Liberal, surgisse qualquer outra força (veja-se, a propósito, o caso da fracassada Aliança), se prepara para ‘roubar’ um, ou mesmo dois, mandatos ao PSD nas próximas eleições europeias, e até (pasme-se!) incorporou um eleitorado que sempre votou comunista, não é menos verdade que, a médio prazo, o próprio PS pode vir a ser ‘vítima’ dessa estratégia de Costa de privilegiar o Chega! em detrimento da direita tradicional e democrática.

Basta olhar, não indo muito longe, para o que sucedeu em França. Lá, na década de 80, François Mitterrand fez alterar a lei eleitoral e substituiu o sistema maioritário em duas voltas pelo sistema proporcional, conseguindo assim fracionar ainda mais o voto da direita, e beneficiando explicitamente a Frente Nacional de Jean Marie Le Pen que, com os seus 14,6 por cento dos votos, elegeu 35 deputados. O resultado dessa aparente ‘jogada de mestre’ de Mitterrand está, trinta anos depois, à vista: o Partido Socialista francês, cujos resultados eleitorais nas legislativas andavam na casa dos 40 por cento, hoje vale pouco mais que 5 pontos.

É preciso dizer mais alguma coisa?

Um homem é um homem, um gato é um bicho

José Paulo Fafe