DIRECTOR: JORGE LEMOS PEIXOTO  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Sándor Márai – lê-se Xandôr – é um escritor nascido em 1900 na Hungria, hoje Eslováquia, autor de mais de 60 livros e considerado um dos maiores da literatura centro-europeia. Era um homem que prezava, acima de tudo, a liberdade, e não se conformou com a ascensão e, mais tarde, a chegada do comunismo ao seu país. Nos anos 20 viveu em França e na Alemanha, tempos mais tarde na Suíça e em Inglaterra, depois em Itália e, por fim, auto-exilou-se definitivamente nos EUA, primeiro em Nova Iorque e depois em San Diego, Califórnia, onde viria a morrer.

Sabendo-o afastado e descrente do regime, alguns compatriotas, críticos literários e não só, espezinharam tanto o seu nome que acabou por perder todo o prestígio e ser esquecido e cancelado, com todos os livros proibidos na sua terra, embora espíritos mais independentes nunca tenham perdido de vista o seu génio literário: descreveu como ninguém as subtilezas entre as classes sociais, a vulnerabilidade humana e a alma feminina – o mundo deve-lhe isso.

Pode tocar-se em tudo, menos na dignidade de um ser humano: deprimido, proscrito e com o nome na lista negra da sua pátria, suicidou-se já velho, aos 88, em San Diego, com uma arma de fogo, depois de ver a mulher Lola morrer lenta e dolorosamente a seu lado. A mesma liberdade que defendeu desde sempre usou-a para não morrer como ela.

Meses depois, deu-se a queda do Muro de Berlim – o destino sabe ser sádico – mas só décadas depois o seu nome seria totalmente reabilitado e a sua obra resgatada do esquecimento, aclamada e procurada na Hungria e em todo o Mundo.

Tive a sorte de ler muitos dos seus livros traduzidos e publicados em Português pela Editora Dom Quixote, mas do que mais gostei foi, sem dúvida, ‘As velas ardem até ao fim’, muito provavelmente um dos melhores romances que li na vida, em sofisticação, clareza, talento e uma técnica de narração tão competente que nos mantém presos ao livro durante horas, sem vontade de interromper e com preguiça de voltar à nossa banalidade. Trata-se da narração iluminada do encontro entre dois velhos, um aristocrata e um operário, amigos inseparáveis nos tempos da faculdade, que se reúnem uma última vez apenas para esclarecer uma dúvida que sempre atormentou o primeiro, nunca antes abordada. O desfecho é aberto, mas põe-nos a todos a especular sobre o que acontecera exactamente num certo dia em que foram ambos à caça. O livro é quase desprovido de sexo, de guerra ou de situações-limite para além da que aqui antecipo. Mas a rendição a este romance, e o consenso por parte de todo o tipo de leitores, jovens ou velhos, cultos ou impreparados, anónimos ou notáveis, é um fenómeno que rarissimamente se observa.

Há cerca de 20 anos, quando este título saiu em Portugal, apenas meia dúzia de pessoas se pronunciou publicamente sobre o livro, mas foi graças a essas que tomei conhecimento do autor e da obra, indo logo comprá-la. Espero um efeito semelhante por parte do público que me lê hoje, aqui, pois estarei eternamente grata ao Miguel Sousa Tavares que um dia a recomendou na TV.

(Não percam tempo, procurem-na hoje. E descansem: não se trata de mais um daqueles livros altamente recomendados por literatos e que depois nos desiludem, fazendo-nos sentir burros ou excepções e arrependidos do dinheiro gasto.)

Depois desse li, seguidos, seis ou sete livros de Sándor Márai, apreciando especialmente ‘A mulher certa’, um mergulho livre em apneia às profundezas da alma feminina, graças aos três olhares distintos de um triângulo amoroso: o homem, a mulher, a amante.

No mês passado, foi publicado mais um inédito deste autor em Portugal – ‘Libertação’ (1945) – novamente pela editora Dom Quixote. Como também é a minha, pedi um exemplar. É um romance passado em 1944, durante o cerco de Budapeste. Estou feliz por ter mais um livro de Márai para ler, mas desconfio que o lugar d’’As Velas ardem até ao fim’ no ranking das minhas predilecções nunca será derrubado. Como escritora, ensinou-me mais do que nenhum outro livro, sobretudo que os romances não precisam de grandes convulsões para subjugarem os leitores e nos ensinarem a ler, a narrar, a pensar, a sonhar e a crescer. Por vezes, basta uma vela por apagar, uma pergunta por fazer – e mais não digo.

Para a semana há mais.

As manhãs formidáveis

Rita Ferro