DIRECTOR: BRUNO HORTA  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Marcus Porcius Latro, célebre retórico romano, professor de Ovídio, dizia: “Os sentimentos humanos no mundo são raros. Eu próprio, acontece-me passar por três ou quatro num ano”. Reparem nesta lamentação: é anterior a Cristo, mas podia ser de hoje.

Invejosa confessa da bondade anónima, pergunto-me todos os anos: Desde que vi a luz do dia, qual foi o maior gesto de que fui capaz? Mas depressa desanimo. Lembro-me sempre da história daquele santo que pregava no deserto e acudia aos pobres e leprosos, mas não conseguia evitar sentir-se vaidoso da sua índole, o que, em certa medida, lhe invalidava o mérito. Um dia, Jesus disse-lhe: “Assim não conta, tem lá paciência; fazes bem aos outros para te olhares no rio e inchares como um pavão, isso para o meu pai não vale nada. Como castigo, ficas proibido de praticar o bem durante seis invernos até aprenderes o verdadeiro significado do amor gratuito.”

E assim foi: o homem cumpriu a penitência, obedecendo sem transgredir e meditando na intenção de Jesus, mas, um belo dia, cruzou-se com uma andrajosa que lhe rogou água e, sacando do cantil, deu-lha até a saciar, esquecido das instruções do Mestre. Aflito, procurou-o a transpirar das mãos: “Perdoa, Senhor, desobedeci às Tuas ordens. Apareceu-me à frente uma mulher cheia de sede e eu, esquecido, estendi-lhe o cântaro”. E Jesus disse: “Aí, sim, foste santo”.

Esperem, talvez nem sempre haja batota: podemos ser absolutamente espontâneos e desinteressados nos nossos rasgos, e só mais tarde desvendar a intenção oculta. Recomeço então: Desde que vi a luz do dia, qual foi o maior gesto de que fui capaz?

O amor romântico, esse, é por vezes tão embusteiro que nem me atrevo a sondá-lo. Existe uma parte tão inconscientemente interesseira entre dois seres que se querem que podemos apaixonar-nos perdidamente pelo que nos traz benefício e só mais tarde, quando a relação termina, perceber que não gostávamos da pessoa, mas do que supúnhamos receber dela.  Mas, do outro amor, o universal, o oferecido a conhecidos ou a desconhecidos que nada têm, aparentemente, que nos interesse – desse sim, podemos falar. Esperem, talvez não, e é um amigo quem me lembra: “A amizade pelos outros é sempre amizade por nós”. Lá está: alguns dos nossos melhores impulsos são para nos redimirmos dos maus. Mas, por outro lado, se houvesse sempre um interesse implícito em tudo o que fazemos, por que razão Jesus perderia tempo gastando aramaico connosco?

Enfim. Partindo do princípio de que a consciência de um gesto bom, e a alegria de o ter praticado, não anula o merecimento, e de que a Bíblia nunca nos exigiu que gostássemos mais dos outros do que de nós, reformulo pela última vez:  Desde que vi a luz do dia, qual foi o maior gesto de que fui capaz?

Experimentem perguntar isto a vós mesmos, sem distracções nem interlocutores, e saberão o sarilho em que se metem. Para começar, não se lembram de nenhum. É preciso muito esforço para situar o primeiro e, quando o analisamos, quase sempre lhe encontramos impurezas. Um dos que me lembro, teria uns onze anos, foi ter-me acusado de ter feito uma coisa que não fizera para salvar a pele a uma colega da escola, mais frágil e desamparada do que eu. A professora de Francês, rubra de cólera, veio ter connosco e perguntou: “Quem escreveu no quadro ‘a madame cheira a raposa?’” Olhei a autora do crime e fez-me dó: fizera aquilo para conseguir prestígio na sala de aula, mas, como não tinha estofo para aguentar o castigo que a esperava, encenou um chilique; foi por isso que me ofereci para a defender, mas sabendo de antemão que conseguiria uma popularidade maior ainda. Não me enganei:  tive um 20 a Religião e Moral, nesse período, e sempre que aludiam ao meu gesto como modelo de virtude eu esboçava um sorrisinho vendido e baixava os olhos, embaraçada.

Esta é a história da minha vida e porventura a de muitos. O bem que fazemos é muitas vezes suspeito, e o que nos salva e redime é esquecermo-nos dos melhores gestos. Um dia, quando tentava lembrar-me, angustiada, de um desses rasgos duvidosos, recebi a visita de um amigo e remeti-lhe a pergunta: “Desculpa, não leves a mal, às vezes faço perguntas estranhas às pessoas: Qual foi a coisa melhor que fizeste, desde que viste a luz do dia? Ele pensou um bocado e disse, encolhendo os ombros: “Não sei, talvez ter salvado a minha irmã de morrer afogada, quando tinha cinco anos. Ela tinha dois, e houve um homem que, afastado de mais para nos poder valer, viu tudo e ainda se lembra. A minha mãe proibira-me de tomar banho no rio e, ao pressentir que eu andava por lá na brincadeira, avançou na nossa direcção tão zangada que metia medo. Nessa altura, o homem gritou: ‘Não batas ao rapaz porque ele salvou a vida da cachopa!”  – caramba, nem o José Mauro de Vasconcelos! “Mas sabias nadar?”, indaguei. “Não, e ainda hoje não sei.” E acrescentou, encolhendo os ombros: “E nem gosto dela, se queres saber. É de todas as irmãs a que menos gosto. É enxertada de um corno e, sempre que me distraio, bate nos meus filhos.”

Porcius, amigo, de então para cá não se evoluiu; os sentimentos humanos continuam raros, e muitos deles nem se justificam.

Para a semana há mais.

As manhãs formidáveis

Rita Ferro