DIRECTOR: JORGE LEMOS PEIXOTO  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Em Abril de há 50 anos, assinalavam-se então os 150 anos da independência do Brasil, desembarcou com pompa e circunstância na baía de Guanabara uma luzidia e vasta comitiva oficial portuguesa, chefiada pelo almirante Américo de Deus Rodrigues Thomaz, e onde, além das inevitáveis Gertrudes e Natália, mulher e filha da referida personagem, não faltavam ministros, generais, contra-almirantes e um sem-fim de diplomatas.

Isto falando de vivos, porque a composição do extenso séquito presidencial luso incluía até um morto, ou pelo menos, o que ainda restava de um defunto, no caso de D. Pedro – o I do Brasil e IV de Portugal, que se tinha finado em Queluz 138 anos antes, e cujas ossadas o prolixo Thomaz fez questão de entregar ao seu homólogo brasileiro, o patibular Garrastazu Médici, numa cerimónia de arromba.

Agora, meio-século depois, depois dos “restos mortuários”, como eram chamados pela imprensa brasileira da altura, é a vez de o coração de D. Pedro seguir viagem até Terras de Vera Cruz – ao que se diz em regime de empréstimo, se é que se pode emprestar alguma coisa ao capitão Bolsonaro… À falta de Thomaz, que já lá vai, toca agora a vez ao enfatuado Rui Moreira, o edil da Invicta, que é assim uma mistura da pose impante de Rui Patrício com a verve oca de Afonso Marchueta, fazer as vezes de carregador de serviço. E, sinal dos tempos, o transporte desta vez não vai ser no ‘Funchal’ (que também já lá vai…), mas consta que a bordo de um avião da Força Aérea Brasileira, onde o burgomestre tripeiro dará certamente a direita ao órgão em formol do antigo monarca, numa viagem que, conhecendo o azougado Moreira, será imortalizada através das habituais e frenéticas postagens no seu instagram. Resta saber se algum dia o dito coração voltará à igreja da Lapa, a sua morada desde o ano da graça de 1835.

Durante uma semana, o país esteve suspenso da nomeação, ou não, de um antigo diretor de informação de uma estação televisiva como consultor ministerial. A eleição, como tema central de debate, de um assunto desta dimensão, como se mais nada de importante ocorresse, mostra bem o estado de mediocridade e indigência a que chegámos – e nem uma prolongada e chata ‘silly season’ poderia justificar a importância que lhe foi dada. A extrema facilidade com que, à esquerda e à direita, todos se apressam a fazer processos de intenções e juízos de valor é inversamente proporcional à seriedade e responsabilidade com que por cá se vai fazendo política.

 

Um homem é um homem, um gato é um bicho

José Paulo Fafe