DIRECTOR: JORGE MORAIS  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

O dr. Moedas, essa espécie de matraquilho falante, dana-se por aparecer – é algo que lhe está no sangue, aquilo é mais forte do que ele. E então, se por perto houver uma câmara, ou mesmo um simples holofote, é certo e sabido que o pequeno e insaciável edil logo se porá em bicos de pés, debitando os habituais lugares-comuns, quase sempre rematados com uma daquelas frase-efeito, o tal ‘soundbyte’, que alguém diligente e oportunamente lhe soprou antes ao ouvido.

Saltitão como é, desta feita o dr. Moedas apareceu, pela mão da D. Cristina, numa Altice Arena cheia que nem um ovo. Subiu ao palco, não falou das cheias, tão-pouco tocou nas alterações climáticas, e muito menos no estado desleixado da sua cidade. Nada disso: perante um pavilhão a abarrotar, desta vez o nosso alcaide preferiu falar de outras coisas, e numa espécie de prédica digna de pastor de uma qualquer iurd, preferiu falar-nos do Bino, o seu professor lá em Beja que era ‘gay’ e que se fartou de lhe ensinar coisas; do pai, coitado, que parece que emborcava uns canecos valentes; dos tipos de Harvard a quem bastou um telefonema para perceberem que estavam perante um génio; e até para se queixar – imaginem! –,  quase de lágrima a escorrer pela facies, de nunca ter tido uma bicicleta.

O pavilhão, ou seja, o povo, como é óbvio, rejubilou – aplaudia guloso todo e qualquer dos muitos lugares-comuns que o nosso edil apresentava como se fosse a coisa mais inteligente do mundo, assim como que ao ritmo de uma parvoíce, uma ovação.

O “menino Carlinhos” (foi assim que a inefável D. Cristina o apresentou…) foi subindo de tom. Entusiasmado, lá nos falou do sonho, da dor, dos detalhes, de tudo um pouco o homem falava, sempre com aquela voz estridente, que amplificada por um sistema de som nos deixa à beira de um ataque de nervos.

A imagem que correu as redes sociais há dias, e que nos mostrava a D. Cristina abraçando e fitando nos olhos a enlevada figurinha, representa de forma sublime o que alguém, com notável acerto, chamou de ‘era do vazio’, ou seja, estes tempos de imbecilidade e de vácuo em que o país vive.

Valeu-nos, vá lá, que a D. Cristina, depois de ter tirado o maneirinho edil do bolso, e a imagem de Nossa Senhora dos célebres sapatos, resistiu a tirar o que quer que fosse da carteira. Ufa, do que a gente se safou…

Um homem é um homem, um gato é um bicho

José Paulo Fafe