DIRECTOR: JORGE LEMOS PEIXOTO  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

As petas que eles pregam aos turistas!

Acha que conhece a história de Lisboa? Desengane-se. O Tal&Qual fez um ‘tour’ histórico a bordo de um dos muitos tuk-tuks que hoje enxameiam a capital. Resultado: uma imaginativa lição de História. Venha daí e fique a saber que, no século XVIII, os sarracenos ainda andavam por cá, que as Cortes eram no Rossio e que há cadeiras milagrosas que fazem filhos a mulheres na ausência dos maridos.
Jorge Lemos Peixoto

Ao início da manhã, já com o sol a escaldar, junto ao Palácio Foz, nos Restauradores, os tuk-tuks alinham-se. Os condutores, muitos oriundos de paisagens longínquas, a maioria do Brasil, mas também, como veremos, do México, exibem cartazes com os preços consoante os vários circuitos propostos. Há passeios para todos os gostos, assim cheguem as bolsas. Alfama e Graça, Chiado e Bairro Alto, os mais baratos, a 70 euros e com duração de uma hora. Depois, o circuito Belém e Tejo, como também o ‘Steeet Art’, o ’Eléctrico 28’ e o ‘7 Colinas’, duas horas a 140 euros. A opção mais cara é o circuito ‘Lisboa Total’, três horas a 210 euros.

O T&Q resolveu experimentar um circuito que nos falasse da história da cidade. Vestimos a pele de turistas. Um casal, tio e sobrinha. Ele, Louis, oriundo de França. Ela, Dyane, canadiana de Toronto, isto para o caso, como se confirmou, de o francês ser inútil e o inglês necessário.

Dyane e Louis avançaram para o primeiro tuk-tuk disponível. A questão linguística ficou logo resolvida. “Vous parlez français?”. A condutora fitou-nos como se estivéssemos a falar mandarim. Valeu a ajuda de uma outra condutora. Com explicações gestuais e em francês, dissemos ao que vínhamos. Acordamos num ‘tour’ histórico de hora e meia, por 80 euros.

A nossa condutora apresentou-se como mexicana. Tinha pouco mais de 20 anos. Usava um vestido tribalista comprido, com enfeites hippies, sandália aberta, anéis nos dedos dos pés e uma discreta tatuagem nas costas. “Chamo-me Carmen, sou do México, não falo francês, mas consigo perceber e falar inglês”, disse-nos num esforçado arremedo quase semelhante à língua de Shakespeare. Pelo caminho, e ganha a confiança de Carmen, percebemos que o México era afinal Madrid, ou talvez Córdoba. Estava reunida uma linda ‘troupe’ de mentirosos!

 

Foi precisamente aqui…

Ultrapassado o Palácio Foz, o local de embarque e os safanões do tuk-tuk faziam tal barulho que para ouvirmos a original história de Lisboa quase tivemos de nos sentar ao colo da Carmen. E valeu a pena. Uns metros depois, ficamos a saber pela boca da condutora que a estação do Rossio, inaugurada em 1891, era afinal “um palácio real que foi adaptado para estação ferroviária”. Ou seja, reis, rainhas, príncipes e princesas, condes e barões deram lugar a carris, máquinas e carruagens. Ao olharmos para a réplica da estátua de D. Sebastião ficamos a pensar se o ‘guapo’ teria voltado de Alcácer Quibir pela suburbana Linha de Sintra. Estávamos ainda a imaginar em que ala do suposto palácio teria sido assassinado o Sidónio, quando deparamos à nossa esquerda com o Teatro Nacional. Carmen, sem hesitar, anunciou que ali “eram as Cortes, uma espécie de parlamento onde se faziam julgamentos e que, após as sentenças, as execuções tinham lugar no meio da praça. Nem mais. Um misto de tribunal e circo romano. O já não existente Palácios dos Estaus, sede da Inquisição, sobre o qual foi construído o teatro de Garrett, inflamava a imaginação histórica da mexicana… ou espanhola. Nesse momento quase nos veio à memória um famoso e histriónico narrador televisivo, de olhar rapino, a corroborar a tese da Carmen e a afirmar perentoriamente: “foi aqui, precisamente aqui”…

 

 

Azulejos dos mouros

Mal refeitos de tanta ‘fake’ histórica logo no início do ‘tour’, apontámos para a estátua no cimo da coluna que se ergue no Rossio. Como Carmen disse ser mexicana, ainda pensámos que, como muitos portugueses, a nossa condutora identificasse D. Pedro como Maximiliano, o imperador do México. “Quem é?” perguntamos. Carmen saca do telemóvel, consulta o “historiador Google” e responde “é o rei, D. Pedro VI”. Não acertou, mas teve a terminação: só confundiu a numeração romana.

Rua do Ouro abaixo, viramos em direção à Sé, com passagem pela igreja de Santo António. Sem precisar do ‘Google’, Carmen explica-nos que o franciscano é o padroeiro de Lisboa. São Vicente, o verdadeiro padroeiro, virá depois, nas Portas do Sol, mas a este Carmen chama “padroeiro dos navegadores”, tudo por causa da barca que tem nas mãos. Os dois santos revolveram-se lá nos céus, em protesto silencioso…  

Os solavancos do tuk-tuk dão-nos descanso no miradouro de Santa Luzia. Uma paragem para ver as vistas e apreciar os azulejos. “São da época dos mouros”, garante Carmen. Um painel representa o Terreiro do Paço, no século XVIII, antes do terramoto de 1755, e noutro vê-se Martim Moniz e a sua mítica morte, entalado na porta do castelo. Os painéis são, na verdade, da autoria de António Quaresma, ceramista célebre na primeira metade do século XX, quando em Lisboa os mouros só sobreviviam na designação com que os definem os portuenses. Mas quem se importa com esses pequenos pormenores?

 

A cadeira que engravida

Seguimos a educativa viagem e já deixámos pelo caminho o Panteão e a Feira da Ladra, local que Carmen garante que era “onde os ladrões se reuniam para venderem os seus produtos roubados”. Pese que esta versão seja comumente aceite, mas não propriamente verdadeira. A origem poderá ser moçárabe. É que no século XIII já ali se realizava, fora das portas da cidade, uma feira, num local de onde estava uma estátua dedicada à virgem Maria, ‘Al-Hadra’ (virgem) em árabe.

Nova paragem, agora no Miradouro da Senhora do Monte. No local existe uma ermida. Nessa ermida, reconstruída depois do terramoto, em 1796, há uma cadeira. A cadeira de São Gens, ainda oriunda da ermida original do século XII. É uma pedra de mármore que, segundo a lenda, ajudava as grávidas devotas da Senhora da Graça a terem um bom parto.

Na versão tuk-tuk, a lenda ganha outros contornos. Carmen revelou-nos esta interpretação livre: “Havia aqui uma mulher cujo marido tinha ido há longos anos para a guerra. Ora ela sentou-se na cadeira e engravidou”. Um símbolo de fertilidade pouco cristão, mas “uma boa desculpa”, comentamos perante o sorriso de Carmen. 

Já sem igrejas, nem milagres, chegamos a Alfama, “o bairro dos muçulmanos”, assegura-nos Carmen. Uma pequena confusão com a Mouraria, já que “aljama” era o nome das comunas dos judeus medievais que ali habitaram. Para aliviar de tanta história inédita, no largo do Chafariz de Dentro bebemos três ginjinhas e, de novo, Carmen assegurava que foi ali mesmo que nasceu o fado. Por nós, tudo bem. Depois do que fomos ouvindo, até podia ser o berço da zarzuela, do tango, do ‘son huasteco’ ou do fox-trot. Estávamos por tudo.

 

O fim da coboiada

O tempo passou. A hora e meia com tanta “história” passou a duas horas. Regressamos a toda a pressa. Ainda passámos pela Praça do Comércio como cão em vinha vindimada. Vimos ao longe a Casa dos Bicos. Carmen afiançou: “foi a casa de um príncipe indiano e agora é o museu Saramago”. A célebre casa foi de facto mandada construir pelo filho de Afonso de Albuquerque, que apesar de ter sido vice-rei da Índia, nunca foi indiano.

A “viagem histórica” terminou no ‘Hard Rock Café’, que já foi o cinema Condes. Ao desembarcarmos, depois de tanto ensinamento, vem-nos à lembrança o tempo em que, entre tantas “fitas”, também ali vimos muitos filmes de ‘cow-boys’. Ainda Carmen não tinha nascido nem andava a contar coboiadas.