DIRECTOR: BRUNO HORTA  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Balsemão à procura de sucessor

Francisco Pinto Balsemão quer a todo o custo manter a sua Impresa, dona do maior grupo de comunicação do social do país, como uma “empresa familiar”. Completou 85 anos. Dos cinco filhos, apenas dois são candidatos à sucessão: Francisco Pedro, da atual mulher, ‘Tita’, e Francisco Maria, fruto de uma relação extraconjugal que só conheceu em finais dos anos 80. Quer deixar-lhes um império mais alargado. Olha com apetite voraz para a Cofina, de Paulo Fernandes, e para a Global Média, controlada por Marco Galinha
Manuel Catarino

Se Pinto Balsemão, rei e senhor Impresa, do semanário ‘Expresso’ à SIC, alguma vez tivesse ouvido Vitorino Nemésio, teria dado razão ao presidente executivo da sua empresa, Pedro Norton. O professor gostava de falar aos seus alunos da Faculdade de Letras sobre exemplos da História: em apenas dois casos os filhos superaram os pais em grandeza e visão – o de Alexandre Magno, que do pequeno reino da Macedónia construiu um vasto domínio da Grécia à Índia, e o do nosso D. João II, o ‘Príncipe Perfeito’, rei de originais virtudes políticas que marcou a transição para os tempos modernos.

Pedro Norton, descrente no futuro do império Balsemão, defendia uma aliança com um parceiro estratégico estrangeiro. Mas o patrão, obstinado como um monarca na salvaguarda dos filhos como seus naturais sucessores, cortou-lhe as vazas: “A Impresa é uma empresa familiar e vai continuar a ser”. O presidente executivo percebeu que estava ali a mais e bateu com a porta.

Balsemão completou 85 anos no 1 dia de setembro. É casado com Mercedes Presas, ‘Tita’ para os mais íntimos, de quem tem dois filhos – Joana e Francisco Pedro. A demissão de Pedro Norton, no início de 2015, abriu caminho ao benjamim Francisco – que se tornou, aos 36 anos, o mais jovem presidente executivo, ou CEO (do inglês ‘chief executive officer’), das 20 maiores empresas cotadas na Bolsa de Lisboa.

A herdeira, formada em Relações Internacionais e mestre em Mudança e Gestão Ambiental, está mais interessada numa carreira política: Joana é vereadora da Câmara de Cascais com o pelouro do ambiente. O pai, o único fundador vivo do PSD e militante número um, tentou empurrá-la para vice-presidente do partido, mas o recém-eleito líder social-democrata, Luís Montenegro, não se deixou impressionar com tão elevada cunha: Balsemão fora o mandatário nacional do candidato rival Jorge Morreira da Silva e há feridas que só saram com o tempo…

Tem mais dois filhos do primeiro casamento, com Maria Isabel da Costa Lobo, conhecida por ‘Belicha’ – Mónica e Henrique. O primogénito, 54 anos, renunciou à sucessão. Fugiu de Lisboa com a mesma fé de um cenobita em busca da paz na terra. “Deu-lhe para criar burros…”, dirá o pai, conformado. Não era piada: Henrique e a mulher, Vera, tocados pela graça da filosofia oriental, instalaram-se na herdade do Monte Velho, na Carrapateira, em plena Costa Vicentina, onde se entregaram a uma vida calma e serena. Exploram um plácido negócio de eco-turismo que inclui passeios de burro. Chegaram a ter 16 asnos. A irmã Mónica, dois anos mais velha, é mais das correrias na cidade e presença habitual nas festas de sociedade. Trabalha perto do pai – mas afastada das fadigas da administração: é diretora de marketing, comunicação e criatividade da Impresa.

 

‘Playboy’ irreprimível

Francisco Pinto Balsemão, menino rico do aristocrático bairro lisboeta da Lapa, agitava a elite social portuguesa dos anos 60.  Do lado paterno vinha-lhe o dinheiro da indústria de lanifícios e de produtos químicos. Da parte da mãe, o sangue bastardo da linhagem de D. Pedro IV. Era um sedutor e um mulherengo – um ‘playboy’ de fama e proveito que deixava o universo feminino em desassossego e desalinho.

O casamento com Isabel Costa Lobo – uma ‘brasa’, segundo testemunhos desse tempo – não resistiu ao hedonismo de Balsemão. O grande escândalo estalou em outubro de 1970. No dia 28, uma quarta-feira, Isabel Maria Supico Pinto deu à luz, em Lisboa, uma criança do sexo masculino. O caso não teria tido a importância não fossem a ascendência da parturiente – filha de Clotário Luís Supico Pinto, eminência parda do Regime, conselheiro privilegiado de Salazar anos a fio – e a identidade do pai do menino, um homem casado, o aventuroso Pinto Balsemão, que se recusou a assumir a paternidade.

O bebé será registado apenas com o nome da mãe: Francisco Maria Supico Pinto. O casamento com Isabel Costa Lobo não resistiu ao escarcéu. Isabel separou-se: irá viver, mais os filhos Mónica e Henrique, com Carlos Cruz. Maria Isabel, a mãe solteira, insistia com Pinto Balsemão para dar o nome ao filho – pedido a que ele fugia invocando razões da sua vida particular. Até que fez chegar ao Tribunal Tutelar Central de Menores de Lisboa, em fevereiro de 1971, um processo de averiguação da paternidade de Francisco Maria. Balsemão, ao fim de uma batalha jurídica, foi obrigado a reconhecer que era o pai.

O escândalo apanhou-o deputado na Assembleia Nacional – eleito na sequência das eleições de 1969, promovidas por Marcello Caetano, o substituto de Salazar. Balsemão fora eleito entre uma trintena de deputados, agrupados na Ala Liberal, convencidos de que o novo presidente do Conselho pretendia fazer o regime evoluir para uma democracia europeia. Não conseguem nada. A Ala Liberal desilude-se aos poucos com o regime. Sá Carneiro, um dos mais combativos liberais, abandona o parlamento em 1973. Balsemão segue-lhe as pisadas.

 

Por fim, o quinto filho

Francisco Maria – apesar de a justiça ter decidido que Pinto Balsemão lhe deu geração – passou toda a adolescência sem se cruzar, nem por uma única vez, com o pai. Conhecia-o pelas fotos dos jornais e pelas imagens da televisão. Depois do 25 de Abril, Balsemão foi sucessivamente deputado à Assembleia Constituinte, à Assembleia da República, ministro – e primeiro-ministro, por duas vezes, de 1981 a 1983.

Apenas em finais da década de 80, através da intermediação de amigos, pai e filho encontram-se pela primeira fez. Mercedes ‘Tita’ Balsemão, a sua segunda mulher, terá incentivado o marido a dar esse passo e foi decisiva para a integração do filho distante na família: à prole de quatro irmãos – Mónica, Henrique, Joana e Francisco Pedro – juntava-se, por fim, o quinto, Francisco Maria. É formado em engenharia informática. O pai levou-o para o mundo dos negócios: fê-lo seu vice-presidente no conselho de administração da Impresa, que abarca todo o império Balsemão na indústria da comunicação social.

 

Lisboa, 21/09/2021 – Lançamento da biografia de Francisco Pinto Balsemão (Diana Quintela)

 

Homem de família

Francisco Pinto Balsemão, determinado a manter a Impresa como uma empresa familiar e a encontrar um sucessor entre a sua prole, junta os filhos todos os verões – e com eles parte em prolongadas vilegiaturas para fora do país. Tem vivido nos últimos anos uma obstinada missão: manter os filhos unidos e deixar-lhes um império economicamente robusto e financeiramente seguro. Tem um plano: consolidar o grupo – o que significa fazê-lo crescer.

Vendeu recentemente as participações da Impresa na agência Lusa – conhecida como o ‘jazigo do dr. Balsemão’, tal a facilidade com que chutava para lá quadros do seu grupo que não sabia onde colocar (Nicolau Santos e Luísa Meireles, por exemplo). Viu-se livre de 476.064 ações, cada uma com o valor nominal de 2,50 euros, representativas de 22,35 por cento do capital social. O comprador, o grupo Global Media, controlado por Marco Galinha, pagou 1,25 milhões de euros. Balsemão também repartiu os 33,33 por cento que a Impresa detinha na distribuidora VASP pela Global Media e pela Cofina, grupo liderado por Paulo Fernandes. Encaixou mais 2,1 milhões. Os dois negócios renderam-lhe 3,35 milhões de euros. Vendeu o que não lhe fazia falta para se atirar ao que ainda não tem.

 

Ponto de mira

Pinto Balsemão, na vagarosa manobra de fazer crescer a sua Impresa, tem olhado com apetite voraz para a Cofina, cujo canal de televisão – a CMTV – lidera as audiências no cabo. Juntaria assim ao seu portefólio publicações que não tem – por exemplo, um jornal diário e um desportivo. No entanto, lá no seu íntimo, uma réstia de pudor trava-lhe a tentativa de controlar uma publicação como o ‘Correio da Manhã’ – que, apesar de líder incontestado de audiências na imprensa diária, tem um perfil editorial que não se ajeita ao estilo que Balsemão sempre tentou imprimir ao leme do seu grupo.

Talvez por isso, há quem defenda que, em alternativa, a Global Media, grupo controlado por Marco Galinha, está debaixo do ponto de mira de Balsemão. Teria mais lógica adquirir um grupo que possui dois diários, o ‘Jornal de Notícias’ e o ‘Diário de Notícias’ (que, pese embora a circulação reduzida, ainda são considerados pelo mercado como ‘publicações de referência’), um jornal desportivo e uma rádio (setor onde Balsemão nunca meteu prego nem estopa), além da participação que a Global Media possui em duas gráficas – a Funchalense, nos arredores de Lisboa, e a Naveprinter, na Maia.

Fontes contactadas pelo Tal&Qual acreditam que já esteve mais longe da cabeça de Balsemão a compra de uma das três posições acionistas da Global Média: a que está ligada a capitais macaenses ou a que possui ligações a certos setores da antiga nomenclatura angolana – e assim, na prática, tornar-se sócio de Marco Galinha.

 

Amigos da banca

Francisco Pinto Balsemão é um homem de negócios de bem com a banca. Os banqueiros, por natureza desconfiados, abrem-lhe com confiança a bolsa do crédito. A Impresa – última proprietária do universo Balsemão e sustentada por uma curiosa e complexa engenharia financeira – está endividada até à raiz dos cabelos. Ainda assim, tem acesso ao dinheiro. Os bancos só impõem uma condição – a de que Balsemão mantenha uma posição dominante no grupo.

A cascata financeira que desagua na Impresa começa numa sociedade anónima, a Balseger, com sede no número 65 da rua Ribeiro Sanches, à Lapa, em Lisboa, o magnífico palacete com 21 quartos e oito salas herdado da família onde Pinto Balsemão cresceu e viveu até casar-se. A casinha está à venda há mais de um ano por quase 10 milhões de contos e ainda ninguém lhe pegou… A Balseger, detida em 99,9% por Balsemão, é dona da Impreger que, por sua vez, é a acionista maioritária, com 51,8 por cento, do capital da Impresa. Ele controla todo o seu império – e não lhe falem, como fez Pedro Norton, em encontrar um parceiro estrangeiro: “A Impresa é uma empresa familiar e vai continuar a ser”. É assim que os bancos querem.

A prova está num contrato de financiamento de 152,5 milhões de euros pelo BPI. Se a participação da Impreger na Impresa baixar de 50,01 por cento o banco pode “resolver o contrato ou declarar o vencimento antecipado e imediato da obrigação de reembolso dos fundos”. O crédito concedido vence-se em 2025. Balsemão está obrigado até lá a manter a sua posição maioritária.

Pode parecer um contrassenso que um grupo com as dificuldades financeiras da Impresa venha a endividar-se ainda mais, quanto mais não seja pela absorção das dívidas que tanto a Cofina como a Global Media possuem. Mas há quem aponte uma vantagem: a diluição do atual passivo da Impresa.

O plano de consolidação do grupo talvez seja a principal razão para Balsemão ter contratado o antigo banqueiro António Horta Osório para a administração da Impresa. Altamente prestigiado, com fortes ligações nos meios financeiros, o antigo homem forte do Santander, do Lloyds e do Credit Suisse pode muito bem desempenhar as funções de ponta-de-lança no mercado que Pinto Balsemão cobiça.

O patrão da Impresa não dá ponto sem nó.