DIRECTOR: BRUNO HORTA  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Bilderberg 2023

Os poderosos vieram à cidade
Não escapou aos nossos fotógrafos: Pinto Balsemão, no banco da frente, ao lado do motorista. O antigo homem Bilderberg em Portugal, hoje retirado, foi um dos muitos convidados para a reunião dos poderosos do mundo em Lisboa. Falaram sobre a NATO e a inteligência artificial. Costa e Marcelo deram um ar da sua graça
Bruno Horta

Um jornalista britânico que estava em Lisboa para cobrir o encontro Bilderberg 2023 encontrou por mero acaso à saída de uma farmácia, junto ao hotel Pestana Palace, o holandês Victor Halberstadt, que na lista oficial da organização aparecia como professor de economia na Universidade de Leiden. Em rigor, ele é também membro do comité organizador de Bilderberg e consultor do influente banco de investimento Goldman Sachs. O jornalista dirigiu-se-lhe e perguntou com naturalidade: “É o senhor Halberstadt?”. Discreto e impassível, com uma embalagem de protector solar na mão, o dirigente deu provas da reserva a que os homens Bilderberg se obrigam — e respondeu com um rotundo “não”.

Passou-se isto na última quinta-feira, 18, primeiro dia da 69ª reunião Bilderberg, desta vez na capital portuguesa (pela segunda vez em Portugal, depois da reunião no hotel Penha Longa, em Sintra, em 1999). Estes encontros são alvo de críticas pela falta de transparência e juntam a nata da política e dos negócios. São descritos como dos mais secretos do mundo. Só em cima do acontecimento é que se sabe quem comparece, não havendo comentários públicos sobre o que lá se diz — além de que a imprensa não está autorizada a entrar. Os encontros acontecem em diversas geografias, todos os anos (menos em 2020 e 2021, por causa da pandemia). Oficialmente, a conferência destina-se a “promover o diálogo entre a Europa e a América do Norte”.

 

 

Durante a tarde de quinta-feira, no Aeroporto Humberto Delgado, estiveram de pé, por longas horas, três hospedeiras com placas onde se lia “Lisbon 2023”. Esperavam na zona das chegadas pelos primeiros convidados. Tinham listas em papel com nomes e iam dando baixa dos passageiros que as abordavam — os quais eram depois levados até carros pretos de alta cilindrada à porta do aeroporto.

Seguiam a caminho do Pestana Palace, no Alto de Santo Amaro, em Alcântara. Vinham em mangas de camisa, outros em fato de treino, muito informais. Mark Rutte, primeiro-ministro da Holanda, e o espanhol Josep Borrell, vice-presidente da Comissão Europeia, foram dois deles. Mas houve muitas outras figuras graúdas: Jens Stoltenberg (secretário-geral da NATO), Chrystia Freeland (vice-primeira-ministra do Canadá); Avril Haines (directora dos serviços secretos americanos), Tom Tugendhat (ministro da Segurança do Reino Unido), Bernard Émié (ministro da Defesa francês), Sam Altman (presidente da Open AI, a empresa por detrás do ChatGPT), Albert Bourla (presidente dos laboratórios Pfizer), e por aí fora. Não faltou o mais antigo dos convidados: o centenário Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA.

 

 

A organização divulgou aos jornalistas, como é habitual, os nomes dos 130 participantes de 23 países. Quanto aos temas, a lista era bastante longa: inteligência artificial, sistema bancário, China, transição energética, Europa, desafios fiscais, Índia, política industrial e de comércio, NATO, Rússia, ameaças transnacionais, Ucrânia, liderança americana.

 

 

Sete portugueses marcaram presença. Desde logo, Francisco Pinto Balsemão, presidente da Impresa. Foi fotografado na sexta-feira à porta do hotel, provavelmente a caminho do almoço em que o primeiro-ministro, António Costa, também esteve. O zelo da PSP era tanto que Balsemão foi barrado e teve de exibir o Cartão de Cidadão, para verificarem se constava da lista. Durante 32 anos, até 2015, o patrão da SIC e do Expresso teve lugar cativo nas reuniões do Clube Bilderberg e na comissão organizadora. Entretanto cedeu o lugar a Durão Barroso. O ex-primeiro-ministro e antigo presidente da Comissão Europeia, hoje consultor da Goldman Sachs, foi outro dos participantes, tal como o advogado e ex-ministro José Luís Arnaut.

 

Mark Rutte & Sigrid Kaag, Deputy Prime Minister of Holland

 

Ainda da parte portuguesa, estiveram Filipe Silva (CEO da Galp), Miguel Stilwell de Andrade (CEO da EDP), Nuno Sebastião (CEO da tecnológica Feedzai) e Duarte Moreira (fundador da sociedade de investimento Zeno Partners). O Tal&Qual perguntou à EDP e à Galp quais os custos para ambas as empresas da participação dos seus presidentes-executivos no encontro Bilderberg. Mas a Galp, que é detida em 7% pelos contribuintes portugueses, e a EDP, que é controlada pelo Partido Comunista Chinês através da empresa China Three Gorges, não deram resposta.

O Clube Bilderberg foi fundado em 1954 na Holanda. Diz-se que neste conclave se tomam decisões que afectam o futuro dos países e que os futuros líderes mundiais têm de passar por Bilderberg se quiserem algum dia ascender ao posto. Quem é convidado, segundo os organizadores, paga a deslocação do seu próprio bolso.

 

Borrell, Josep (INT), Vice President, European Commission

 

Em rigor, há mais reserva do que segredo. Lá dentro a agenda é exigente, com mais de uma dezena de palestras ao longo de três ou quatro dias, das 8h30 às 18h30. O formato é semelhante ao de outras conferências: um painel de especialistas apresenta pontos de vista, seguindo-se um momento de perguntas por parte de quem assiste. No sábado terá havido um jantar no hotel com o Presidente da República, ainda que não haja registo fotográfico da presença de Marcelo Rebelo de Sousa O encontro terminou no domingo. Quais os resultados? Bem, segundo os conspiradores, irão notar-se aos poucos nos próximos meses.

 

Até o porta-voz é anónimo

O Tal&Qual conseguiu falar com um porta-voz holandês do Grupo Bilderberg, que pediu para não ser identificado. Respondeu a tudo, mas evitou entrar em pormenores. Não confirmou, e também não desmentiu, o que é óbvio: que a organização do encontro em Lisboa teve uma ajudinha da empresa a Bild-Encontro Internacional 2023, tal como revelado nestas páginas a 26 de Outubro. A empresa foi criada em Março do ano passado por Durão Barroso e José Luís Arnaut e está registada numa conservatória de Lisboa, tendo sede no número 50 da Rua Castilho — a mesma morada do escritório de advogados de Arnaut.

Segundo o porta-voz, Lisboa foi escolhida por ser um “bom sítio para conferências internacionais” e apesar de ser uma cidade pacífica obrigou a cautelas especiais. “Alguns participantes têm de ter segurança a todo o tempo. Estas exigências acabam por ser adoptadas como a norma a seguir”. E será que a comissão organizadora de Bilderberg se sente confortável com o incómodo causado aos lisboetas pelas restrições de circulação junto ao hotel Pestana Palace, sem que essas restrições tenham sido explicadas ou anunciadas. “Tem que ver com as questões de segurança”, justificou. “Mas esperamos sempre que as restrições se mantenham nos mínimos e só podemos agradecer a compreensão”.

Quanto às habituais críticas de que estes encontros não têm a devida transparência nem participação democrática, visto que os temas tratados influenciam a vida dos cidadãos, o porta-voz alegou que “todos os dias em todo o mundo há conferências à porta fechada” com poderosos envolvidos. “Bilderberg recebe muita atenção de manifestantes anti-globalização e de defensores de teorias da conspiração, que apresentam alegações estranhas e infundadas”, acrescentou.