DIRECTOR: JORGE LEMOS PEIXOTO  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Chamem a polícia!

Tal como o T&Q noticiou há pouco mais de um ano, as autoridades estão a investigar a fundo um suposto favorecimento da SIC na medição das audiências televisivas. Na semana passada, a Polícia Judiciária fez buscas na empresa GFK, na casa do seu presidente, e só por um triz não entrou pela casa de Balsemão adentro...
Repórter T&Q

Ainda na ressaca das comemorações do 30º aniversário da ‘sua’ SIC, a manhã da segunda-feira da semana passada não começou da melhor maneira para Francisco Pinto Balsemão. Praticamente à mesma hora em que, na sua casa da Quinta da Marinha, o ‘patrão’ do grupo Impresa se preparava para fumar o primeiro cigarro do dia, vários inspetores da Polícia Judiciária irrompiam portas adentro nos escritórios da GFK, a empresa que faz as controversas medições de audiências da televisão em Portugal, e na própria casa de António Salvador, o seu presidente, por sinal um dos mais destacados nomes do setor das sondagens e dos estudos de opinião no nosso país.

Mas o que não passou de todo nessa manhã pela cabeça de Balsemão é que também a sua casa esteve a ponto de ser ‘invadida’ por uma brigada da Judiciária, e isso só não ocorreu porque o Ministério Público se opôs à última hora à pretensão dos investigadores.

Ao longo de ano e meio, uma equipa da Unidade de Combate à Corrupção da PJ desenvolveu uma investigação sobre as suspeitas que há muito pairam sobre a medição das audiências televisivas no nosso país, e que poderão possuir um impacto direto no mercado publicitário, o que envolveria um crime de corrupção no setor privado.

Números manipulados

Tal como o Tal&Qual noticiou em Junho de 2021, a investigação surgiu na sequência de uma denúncia anónima feita à Procuradoria-Geral da República, através de uma carta de 4 páginas enviada à PGR, onde os denunciantes enumeram algumas situações que, segundo eles, fariam supor a existência de um ‘pacto’ entre o grupo Impresa, dono da SIC, e a GFK, para que alegadamente esta empresa aumentasse artificialmente os números do canal de Pinto Balsemão. Nesse documento, é garantido mesmo ter existido uma reunião privada entre o ‘patrão’ da SIC e António Salvador, na qual alegadamente teria sido acordada a manipulação das audiências. Segundo a denúncia, “em dias decisivos para afirmação das principais apostas de programação do canal SIC ou em dias de natural vantagem para canais concorrentes, nomeadamente pela transmissão televisiva de jogos de futebol (…), as audiências da SIC seriam alteradas, adulteradas e aumentadas”.

 

O comentador Salvador

As desconfianças relativamente à medição das audiências televisivas não são de hoje, existindo quem há muito ponha em causa a metodologia usada para determinar quem são, tanto na televisão generalista, como na televisão por cabo, os canais mais vistos – uma avaliação determinante para quem decide onde e em que montante é feito o investimento publicitário, um mercado cujo valor ronda os 250 milhões de euros anuais.

A alternativa seria recorrer, até complementarmente aos apenas mil audímetros da GFK, aos dados que são disponibilizados pela MEO, NOS e Vodafone através das suas ‘boxes’, bem como todos os inúmeros serviços de streaming: “Seria muito mais fiável, até porque os dados recolhidos pelos operadores não enganam ninguém”, justificam os defensores desse tipo de medições. Algo que o próprio António Salvador não desmente, preferindo apenas, como o fez há uns meses à RTP, argumentar laconicamente que “isso não está previsto no contrato”.

A propósito de Salvador, refira-se que a postura do ‘patrão’ da GFK tem suscitado alguma polémica no setor, nomeadamente o facto de, apesar de estar à frente da empresa que mede as audiências televisivas, fazer parte de um painel de comentadores de futebol na CMTV, curiosamente o canal que está em primeiro lugar nas audiências da televisão por cabo.