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E agora para onde vão os doentes?

Manuel Pizarro quer fechar Centro de Saúde do Cais do Sodré
A Junta de Freguesia da Misericórdia já pediu explicações ao Governo sobre o encerramento, anunciado pelo Ministério da Saúde, do Centro de Saúde do Cais do Sodré. Utentes e profissionais de saúde temem que a unidade nunca mais volte a abrir
Alfredo Miranda

O Centro de Saúde do Cais do Sodré, em Lisboa — oficialmente designado Unidade de Saúde Familiar (USF) da Ribeira Nova — serve uma população de quase oito mil pessoas do Bairro Alto, Cais do Sodré e São Bento, a maior parte com idade avançada, problemas de mobilidade e baixíssimas pensões de reforma. Ainda assim, perante este cenário, o Ministério da Saúde — e a Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo — pretende encerrar aquela unidade para presumíveis obras de reabilitação.

O argumento é exactamente esse: o edifício precisa de obras urgentes e por isso o Centro de Saúde tem de fazer deslocar os seus milhares de utentes para a USF de Alcântara. Fontes que conhecem o processo dizem-nos que existiria sempre a hipótese de o Centro de Saúde do Cais do Sodré passar provisoriamente para edifícios devolutos da Câmara de Lisboa ou da Santa Casa da Misericórdia existentes na Rua de São Paulo.

Contudo, como nos confidenciam, isso pode não interessar à autarquia liderada por Carlos Moedas. É que o presidente da Câmara está hoje mais empenhado em promover o seu ‘Plano de Saúde Lisboa 65+’. Trata-se de uma bandeira eleitoral de Moedas, no terreno desde Janeiro, que visa garantir, como diz a autarquia, “o acesso a cuidados de saúde aos lisboetas com idade superior a 65 anos”, incluindo teleconsultas, médico ao domicílio e transporte em ambulância.

Médicos, enfermeiros e administrativos da USF da Ribeira Nova estão preocupados com o encerramento — que está anunciado mas ainda não tem data para se concretizar. Os profissionais de saúde dizem que está em causa a saúde dos seus utentes e por isso têm encetado vários esforços para explicarem ao Ministério da Saúde que, com esta deslocalização, muitos idosos vão deixar de ser acompanhados. “Não têm condições para se deslocarem. Já virem até aqui é um problema. Quando os transferirem para Alcântara, pura e simplesmente vão deixar de ir ao médico”. As dificuldades de locomoção são grandes e o dinheiro para táxis ou TVDE não existe, já para não falar dos transportes públicos, que naquela zona costumam estar apinhados de turistas e sem lugares sentados.

A preocupação já levou a Junta de Freguesia da Misericórdia a questionar o ministro Manuel Pizarro e a ARS sobre as “alternativas que, certamente, estão a ser ponderadas para continuar a garantir o acesso aos cuidados de saúde da população”. A presidente da Junta, a socialista Carla Madeira, apesar de não ter confirmação oficial do encerramento do Centro de Saúde do Cais do Sodré, está preocupada e apela para que se encontre “uma alternativa no território da freguesia”, indo ao encontro dos anseios dos utentes e dos profissionais, que já identificaram espaços que poderiam vir a ser ocupados e que implicariam um “curto investimento”.

Num momento em que o ministro Pizarro anuncia uma “mudança profunda” nas Unidades de Saúde Familiares — que vai permitir que mais de 200 mil utentes tenham médico de família —, utentes e profissionais do Centro de Saúde do Cais do Sodré, e a própria Junta de Freguesia, não entendem os motivos que levaram à decisão de encerramento. Alegam que a unidade não voltará a abrir. “Será que o querem transformar num espaço para os turistas?”, ouviu o T&Q.

O T&Q remeteu perguntas por e-mail ao gabinete de Manuel Pizarro, que as reencaminhou para a ARS. Segundo esta entidade, a USF da Ribeira Nova “está a funcionar onde sempre esteve, no edifício da Rua Ribeira Nova, no Cais do Sodré” — o que é sabido. Acrescentou que se “confirma o interesse” em ter “instalações totalmente novas e concebidas para a prestação de cuidados, algo que tem estado a ser desenvolvido em conjunto com a Câmara de Lisboa”.

Indo ao encontro do que defendem profissionais de saúde e utentes, a ARS disse-nos ainda que está em cima da mesa “a instalação provisória da USF durante o período de construção do novo edifício”, ou seja, ainda há a hipótese de os doentes não terem de ir até Alcântara. Na cidade dos nómadas digitais e do turismo em barda, há questões sociais graves que vão passando sem comoção pública.