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Ele queria a refinaria

Uma história muito mal contada. No início do mês o romeno Stefan-Paul Iliescu (na foto) apareceu a oferecer 285 milhões de euros pela antiga refinaria da Galp em Matosinhos. A Galp veio entretanto dizer que a proposta não tem credibilidade. Há suspeitas de burla. Quem tratou do assunto foi um antigo secretário de Estado de José Sócrates
Bruno Horta

A espantosa notícia apareceu a 5 de Outubro no Jornal de Notícias. Tão espantosa que até parecia mentira: a empresa Simpatrans Oil & Gas Limited propôs à Galp a compra da refinaria de Leça da Palmeira, em Matosinhos, por 285 milhões de euros — o que a concretizar-se faria regressar à laboração o antigo complexo industrial da Petrogal (grupo Galp) abruptamente encerrado em Dezembro de 2020. Seria possível? Parece que não.

Com discrição, a empresa presidida por Paula Amorim fez soar os alarmes. Anunciou que a demolição da refinaria iria avançar e informou que não tinha recebido “qualquer proposta credível relativamente à Refinaria de Matosinhos”. Traduzindo: a Simpatrans terá tentado enganar a Galp. A história é rocambolesca.

Quem assinou a proposta de compra foi Stefan-Paul Iliescu, de 45 anos, natural da Roménia. Apresenta-se como presidente-executivo da Simpatrans. De facto, uma base de dados pública do governo britânico, com o registo de sociedades comerciais, mostra que a empresa se situa no Reino Unido e que Iliescu é o seu principal responsável.

Mas a mesma base de dados revela que a sede da Simpatrans é num edifício de escritórios ‘low cost’ em Blackburn, a poucos quilómetros de Manchester, que não tem activos, que registou zero resultados em 2021 e que só tem um empregado nos seus quadros. Esquisito para uma empresa que pretendia dar 285 milhões pela Refinaria de Matosinhos — até porque além deste investimento seria preciso gastar pelo menos mais 100 milhões na reabilitação do complexo industrial, para que ele voltasse a operar.

Ao telefone, a partir da Roménia, Stefan-Paul Iliescu garante-nos que tem uma reunião agendada com a Câmara de Matosinhos e já deu conhecimento das suas intenções ao Governo, através da Secretaria de Estado da Energia. Apesar das tentativas, não conseguimos obter um comentário das duas entidades. O presumível empresário romeno assegura que tem vários investidores interessados no negócio, o mais sonante dos quais é a Amazon, o gigante americano da internet.

 

Esteve no Governo de Sócrates

Quem facilitou o contacto entre Iliescu e a Galp foi o jurista Carlos Lobo, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais do primeiro Governo de José Sócrates, entre 2008 e 2009. Stefan-Paul Iliescu vive na zona de Cluj-Napoca, noroeste da Roménia, e não se deslocou a Portugal. Pediu a uma luso-romena, Cristina Campion, que encontrasse um jurista que o ajudasse a chegar à Galp — e o jurista acabou por ser Carlos Lobo, que além do mais é professor associado da Faculdade de Direito de Lisboa e entre 2009 e 2012 foi vice-reitor da Universidade de Lisboa.

Ao T&Q, Carlos Lobo defende-se. “A Simpatrans fez uma análise de todas as refinarias disponíveis na Europa e percebeu que a Refinaria de Matosinhos seria uma boa opção. Simplesmente aceitei este trabalho através de uma rede de contactos e facilitei a chegada da proposta escrita a quem de direito dentro da Galp”. Insiste: “De tudo o que vi, pareceu-me, e ainda me parece, uma proposta altamente credível”. Quanto aos estranhos factos que envolvem Stefan-Paul Iliescu, o ex-secretário de Estado diz apenas que os “desconhece totalmente”.

Fontes bem informadas aventam a hipótese de a Simpatrans ser testa-de-ferro de interesses imobiliários. A empresa do romeno compraria a refinaria para que mais tarde os respectivos terrenos — são cerca de 240 hectares — servissem para a construção de imóveis.

Segundo Carlos Lobo, a Galp nunca disse directamente a Iliescu que a sua proposta era pouco credível. A energética terá enviado há dias uma resposta oficial à Simpatrans, dizendo que não poderia aceitar a oferta por já ter assumido o compromisso de demolir a refinaria e de ceder os terrenos para um pólo da Universidade do Porto. O T&Q pediu a Stefan-Paul Iliescu e a Carlos Lobo uma cópia da presumível resposta oficial da Galp, mas ambos rejeitaram.

É sabido que os grandes grupos costumam receber dezenas de propostas comerciais inválidas ou apenas excêntricas. Mas esta foi especial. Se não é burla, o que será?