DIRECTOR: JORGE LEMOS PEIXOTO  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Fidelidade à terra não dá votos

Relendo, nestas férias, a História de Portugal de Oliveira Martins detive-me, de novo, na sua afirmação de que “Portugal foi Lisboa e sem Lisboa não teria resistido à força absorvente do movimento de unificação do corpo peninsular” (Guimarães Editores, 1987, p. 29). E recordei o que sempre tive como uma certeza. A de que o mito da necessidade da ligação de qualquer liderança ao País real, à província, ao Portugal telúrico, é isso mesmo.

Um mito, construído por António de Oliveira Salazar, mas que, desde que este abandonou a chefia do Governo, em 1968, não mais se verificou, a não ser com uma exceção, e sem ter como base uma qualquer vitória eleitoral. Porque essas — a nível nacional — são exclusivas de quem nasceu na capital, ou aqui fez a sua vida. Um mito para consumo jornalístico, para vender a ideia de que essa ligação se faz e vem do Portugal profundo… Ora, nada mais errado!

Mesmo esquecendo — no pós-salazarismo — Américo Thomaz e Marcelo Caetano, todos os Presidentes da República e primeiros-ministros desde então — com a tal exceção — tinham uma ligação originária a Lisboa ou ‘conquistaram-na’ pelas opções de vida que foram fazendo.

Pelo contrário, todos os que se orgulharam de continuarem com a sua ligação (quase) diária ‘à terra’ (fosse ela qual fosse) perderam nas urnas, por mais tempo que tenham estado no poder partidário.

Não está em causa a avaliação do mérito, mas essa é uma constante: só vence — a nível nacional — quem é de Lisboa ou quem faz de Lisboa a sua cidade. Quem não consegue sair da terra, não conquista Lisboa (apesar da tentativa de ligação do carácter à província, como o fez Francisco Sá de Miranda na ‘Carta a El-Rei D. João III — “Homem de um só parecer, D’um só rosto, uma só fé, D’antes quebrar, que torcer, Ele tudo pode ser, Mas de corte homem não é”).

Como Presidentes da República, Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Marcelo Rebelo de Sousa são bem a prova disto tudo, apesar da ligação sempre assumida do primeiro a Alcains, mas sem nunca deixar de ser um militar das guerras de África, um Capitão de Abril, um homem de… Lisboa.

O mesmo se diga de todos os primeiros-ministros da III República! Mário Soares (1º, 2º e 9º Governos), Alfredo Nobre da Costa (3º), Maria de Lourdes Pintasilgo (5º), Francisco Sá Carneiro (6º), Francisco Pinto Balsemão (7º e 8º), Aníbal Cavaco Silva (10º, 11º e 12º), António Guterres (13º e 14º), José Manuel Durão Barroso (15º), Pedro Santana Lopes (16º), José Sócrates (17º e 18º), Pedro Passos Coelho (19º e 20º) e António Costa (21º, 22º e 23º), ou eram de Lisboa ou invocavam ligações distantes a terras que os viram partir, muito cedo, para… Lisboa!

De Lisboa, assumidamente, António Costa, Pedro Santana Lopes, Francisco Balsemão, e Alfredo Nobre da Costa. Ainda de Lisboa, mas que ‘inventaram’ uma ligação ao Portugal profundo: Durão Barroso (Trás-os-Montes), António Guterres (Castelo Branco) e Mário Soares (Leiria).

Ou os que, não sendo de Lisboa, se fizeram cidadãos da capital, por ninguém os julgar de outro lugar, a não ser nas origens, longínquas, no tempo ou na experiência e na vida seguida, como Passos Coelho (Coimbra), José Sócrates (Porto), Cavaco Silva (Boliqueime), Sá Carneiro (Porto) e Maria de Lourdes Pintasilgo (Abrantes)

Exceção, única, que confirma a regra, a de Carlos Alberto da Mota Pinto como primeiro-ministro (4º), num Governo de iniciativa presidencial, ele que sempre foi um homem de Coimbra.

Desenganem-se, pois, os que acham que o invocar dessa fidelidade à terra (por lá continuando e só ‘descendo’ a Lisboa quando é imprescindível) os leva ao poder com os votos dos portugueses. Não leva!

Não discuto a afirmação de Júlio César — “Prefiro ser primeiro na minha aldeia do que segundo em Roma” —, mas sei que, por estes lados, ela tem como consequência nunca chegar a primeiro, neste caso, em Lisboa.

A tal — voltando a citar a mesma História de Portugal de Oliveira Martins — “Lisboa grande cidade de muitas e desvairadas gentes era mais do que a capital do reino: era a razão de ser da sua independência” (p. 99).

 

Rui Gomes da Silva

Ex-ministro dos Assuntos Parlamentares e ex-vice-presidente do PSD

Rui Gomes da Silva