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Isabel dos Santos foi buscar lã, e saiu tosquiada

Isabel dos Santos afirmou nas redes sociais que era falsa a notícia do Tal&Qual sobre o contrato milionário que assinou com lobistas americanos para sujar a imagem do presidente angolano. A notícia é verdadeira. Falsas foram as declarações que a empresárias prestou sobre as relações com o poder em Portugal
Repórter T&Q

A empresária Isabel dos Santos, que é acusada pelas autoridades judiciais de Angola de peculato, tráfico de influências e danos ao erário público de mais de mil milhões de euros, resolveu reagir com hostilidade à notícia de primeira página do Tal&Qual da semana passada. Na quarta-feira, horas depois de o nosso jornal ter chegado às bancas, a filha do ex-presidente angolano José Eduardo dos Santos (1942-2022) fez publicar no Instagram uma imagem adulterada da nossa manchete, com as inscrições a vermelho “fake news” e “notícia falsa”, acrescentando o seguinte comentário: “Aonde está esse contrato de cinco milhões?”, “convido o Tal&Qual a publicar tal alegado contrato”.

O contrato estava reproduzido nas páginas interiores do nosso jornal. Nunca foi boa ideia ler apenas as primeiras páginas dos jornais e tirar conclusões a partir daí. Revelámos que Isabel dos Santos assinou a 29 de Novembro um contrato de cinco milhões de dólares (cerca de 4,7 milhões de euros) com uma empresa americana de ‘lobying’ — a Stryk, que já trabalhou para o ex-presidente Donald Trump —, para que esta denuncie junto da administração de Joe Biden “crimes e abusos de direitos humanos por parte do presidente de Angola, João Lourenço”. 

Aquela que já foi conhecida como a mulher mais rica de África, e que em Luanda ainda hoje é tratada como ‘a princesa’, está claramente apostada em manchar a imagem de João Lourenço, numa altura em que a Justiça de Angola investiga o percurso milionário que Isabel dos Santos fez à sombra do regime autoritário que o pai liderou durante 38 anos.

No comentário do Instagram, a empresária referiu também que “qualquer contrato de lobby nos EUA é público e é declarado” à luz de uma lei americana de 1938 conhecida como FARA (Foreign Agents Registration Act, lei do registo de agentes estrangeiros). É verdade. A empresária está muito bem informada sobre a legislação americana dos lobbies. Mas este facto, ao contrário do que sugere Isabel dos Santos, não comprova que houve ‘fake news’ do T&Q. Pelo contrário, reforça a credibilidade da nossa notícia.

É verdadeiro e válido o contrato de cinco milhões a que tivemos acesso e que reproduzimos há uma semana (e que voltamos a reproduzir agora). Desta vez apresentamos também as provas do registo do contrato ao abrigo da FARA. O contrato é de 29 de Novembro, o registo na FARA é de 1 de Dezembro. Quem quiser ler o original no site oficial pode fazê-lo através do código QR que se encontra nesta página. 

O T&Q não mentiu em relação à existência do contrato e muito menos quanto ao seu conteúdo. A antiga presidente da petrolífera estatal Sonangol é que parece ter alguns problemas com a verdade. Não tentou apenas desmentir os factos verídicos que publicámos. Em entrevista recente à CNN Portugal — transmitida, aliás, no mesmo dia em que Isabel dos Santos assinou o contrato com a Stryk, a 29 de Novembro — a engenheira electrotécnica pretendeu até reescrever a História.

O jornalista Nuno Santos perguntou-lhe: “O poder político em Lisboa nunca a ajudou?”. Ela respondeu: “A relação que tive em Portugal não foi com o Governo. Foi efectivamente uma relação com os privados”. O assunto emergiu depois de o antigo governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, ter afirmado no livro O Governador, do jornalista Luís Rosa, que o primeiro-ministro António Costa teria alegadamente intervindo a favor de Isabel dos Santos junto do regulador da banca em 2016. Dias antes, em entrevista à rádio alemã Deutsche Welle, a empresária havia afirmado: “O Estado português nunca interveio a meu favor. Os meus investimentos não têm nada que ver com intervenções políticas do Estado português”. A sério?

Há copiosas fotografias de encontros de Isabel dos Santos ao mais alto nível com representantes eleitos em Portugal. Não é preciso recuar muito. Em Fevereiro de 2018, o então ministro da economia Manuel Caldeira Cabral apertou a mão a Isabel dos Santos na inauguração de uma fábrica da Efacec na Maia. A empresa era à data detida maioritariamente pela filha de José Eduardo dos Santos.

Mais: ela diz que o poder em Portugal não lhe passava cartão, mas o Presidente da República declarou ao Expresso de 18 de Novembro que “ainda foi tentado um acordo” com Isabel dos Santos, “laboriosamente construído” entre António Costa, Mário Centeno e Carlos Costa em 2016 para enquadrar a saída da empresária do BPI. A mentira tem perna curta.