DIRECTOR: JORGE LEMOS PEIXOTO  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Lágrimas de crocodilo

Ninguém fica indiferente ao drama dos pobres imigrantes que se fazem ao mar na esperança de alcançarem as costas europeias e uma vida menos miserável. À vista desarmada, em observação de superfície, estamos perante uma questão humanitária. Mas o problema da imigração clandestina não pode ser sopesado só com o coração nem observado apenas através das fotos pungentes tiradas nas barcaças, na ponta final de um processo que tem início muito antes.

E o processo começa nos países a que outrora chamávamos Terceiro Mundo, onde angariadores sem escrúpulos propagandeiam as delícias celestiais que os potenciais imigrantes encontrarão quando atingirem o ‘el dorado’. Muitos caem na esparrela e entram num processo tenebroso de extorsão que tantas vezes acaba na morte em alto mar.

Nos primórdios desta autêntica indústria, as rotas do Mediterrâneo Central foram as mais usadas pelos traficantes de seres humanos. Cada travessia do Norte de África para a Grécia ou a Itália custava o equivalente a 1.800 euros (a viagem desde a origem remota até ao ponto de embarque era igualmente paga pelo potencial imigrante).

Mais recentemente, com o aperto das malhas no Adriático e no Tirreno, o negócio expandiu-se para o Mediterrâneo Ocidental. Aqui, até recentemente, os traficantes cobravam dois mil euros por uma travessia da Argélia ou do Marrocos para Espanha; hoje, os preços duplicaram. E muitos negociantes organizaram já um verdadeiro carreiro de escravos da África Central e Ocidental para o Norte de África, via Mali e Mauritânia, e depois de barco para as costas da Andaluzia e de Múrcia.

Um sub-negócio foi entretanto montado também no Canal da Mancha, visando explorar os imigrantes ilegais em risco de serem presos na França ou na Alemanha e deportados: por três ou quatro mil euros por cabeça, os traficantes “oferecem” um serviço de desembarque no Reino Unido, prometendo-lhes de novo o paraíso – e desta fileira os gangues já extraíram lucros de mil milhões de euros desde 2018.

É aqui, neste negócio de ignomínia, que verdadeiramente começa o drama da imigração selvagem.

Estranho que nenhum dos movimentos “solidários”, políticos “preocupados” com os clandestinos, associações caritativas ou bispos e pontífices modernistas analise o problema em toda a sua extensão. Estranho que não se mobilizem para punir os traficantes de pessoas, os donos das barcaças, os angariadores que alimentam ilusões a uns tantos mil euros por cabeça. Estranho que nada façam para que o Terceiro Mundo saia da miséria e esta gente deixe de ter necessidade de buscar paraísos artificiais longe de casa. Estranho que não mexam um dedo para acabar com as causas – e se limitem a exigir aos europeus que aceitem as consequências. ¿Ou será que estão mais interessados em manter este fluxo obsceno de mão-de-obra a preços de saldo?

Esses falsos “progressistas”, que tanto enchem a boca com a compaixão e a fraternidade, não passam afinal de hipócritas. Circula pela internet um filme perturbador: numa manifestação “politicamente correcta” de falsos amiguinhos dos imigrantes, um repórter vai perguntando quem estaria disposto a receber um refugiado em sua casa – e nem um (nem um só!) se chega à frente. O Mediterrâneo é hoje um mar feito de lágrimas de crocodilo.

Jorge Morais
Jorge Morais