DIRECTOR: JORGE LEMOS PEIXOTO  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Maldito vício!

Quatro milhões de euros gastos por dia em raspadinhas. Cem mil apostadores “com problemas” e trinta mil totalmente viciados. São números brutais a enquadrarem casos dramáticos de quem aposta o que tem e o que não tem na lotaria instantânea. Com a ajuda da associação Jogadores Anónimos, a nossa repórter ouviu várias pessoas que não conseguem resistir à tentação – como Zulmira, que chegou a ficar com a eletricidade cortada em casa por causa do jogo que está a dar cabo da vida a muita gente
Laura Marques

Todos os dias, logo pela manhã, é comum ver muitas pessoas em cafés, em papelarias e em quiosques a rasparem os cartões da lotaria instantânea, a raspadinha. Em Portugal, o problema não passa despercebido e o Conselho Económico e Social (CES), em colaboração com a Universidade do Minho (UM), elaborou um estudo – ‘Quem paga a raspadinha’ – que documenta de forma científica o que todos os dias se vê nas ruas: são os mais pobres, mais velhos e com menor escolaridade quem mais aposta neste jogo. Cem mil já apresentam “problemas associados ao jogo” e, deste universo, 30 mil já estão mesmo viciados.

A psiquiatra Maria Moreno, da clínica Fisiogaspar, desvenda o que se passa no cérebro humano e que leva a apostar na lotaria instantânea. “No centro do nosso cérebro existe um sistema de recompensa que nos faz sentir prazer e motivação. Quando jogamos e sentimos a emoção da vitória, ou da quase vitória, este sistema liberta dopamina, o ‘químico do prazer’ por excelência”. Perante este mecanismo fisiológico, a médica não duvida: “Quanto mais se joga, mais se quer jogar”.

Zulmira pertence aos Jogadores Anónimos, um grupo de autoajuda para pessoas com problemas de jogo que nas últimas semanas se prontificou a indicar vários casos extremos de apostadores compulsivos dispostos a contarem a sua experiência ao nosso jornal. Zulmira é um desses casos. Continua viciada em raspadinhas, apesar de estar a tentar controlar a situação. Muitas vezes, o vício acaba por vencê-la e é, de facto, a perspetiva de ganhos rápidos que lhe tolda os pensamentos e ações.

“Há aquela euforia do resultado imediato”, conta-nos. “A pessoa vai, joga, vê que está a perder mas continua a jogar, sempre naquela expectativa de que será da próxima vez que vai ter prémio. Só que isto não é verdade, porque há maços de raspadinhas que já nem têm prémio nenhum”.

Zulmira tem 68 anos e é um caso paradigmático. Segundo o estudo do Conselho Económico e Social, quem mais joga na raspadinha são mulheres de idades entre os 51 e os 65 anos, com poucos estudos e rendimentos entre 400 e 664 euros mensais. Quem não completou o ensino secundário, segundo o estudo do CES, tem seis vezes maiores probabilidades de apostar na lotaria instantânea. Zulmira tem a antiga quarta-classe, é empregada doméstica e começou a jogar por volta dos 50 anos. “Levei uma vida normal, sem jogo, até essa idade. Em 2013 perdi a minha mãe e foi o descalabro”.

Naquela altura, chegava a gastar centenas de euros em raspadinhas. “Gastava 200 ou 300 euros num dia. Não o fazia todos os dias, mas quando me metia nisso ia o dinheiro todo que tinha. E depois, quando já não tinha dinheiro na carteira, ia ao multibanco e levantava mais”, revela a jogadora.

 

Prémio envenenado

Com baixos rendimentos, Zulmira não conseguia parar de raspar mesmo que estivesse a gastar centenas de euros. É natural. “Os jogos de azar, como as raspadinhas, exploram a ciência por trás do vício. Este mecanismo torna-se especialmente atrativo para aqueles que vêem no jogo uma esperança de mudança financeira”, acrescenta a psiquiatra Maria Moreno.

Zulmira chegou a meter ao bolso alguns prémios. “Uma vez ganhei 500 euros, noutra mil… Até que no dia 6 de dezembro de 2013 ganhei um prémio de 10 mil euros. Depositei cinco mil no banco e gastei os outros cinco mil em compras, porque era altura do Natal. A partir daí foi o pior ano da minha vida. O dinheiro que guardei no banco acabei por gastá-lo todo em raspadinhas e nunca mais me saiu nada”.

A psiquiatra Maria Moreno tem uma explicação: “Estas pessoas, muitas vezes, vêem nas raspadinhas uma esperança de melhoria financeira rápida, de uma saída fácil. Adicionalmente, a falta de educação financeira combinada com uma visão distorcida das probabilidades reais da vitória, bem como uma maior vulnerabilidade às estratégias de marketing direcionado, podem levá-las a gastar mais do que podem”.

A situação de Zulmira degradou-se. Mãe de dois filhos, na altura tinha-se comprometido a pagar a prestação do carro do filho. Começou a falhar. “A prestação caía diretamente na conta e não estava lá dinheiro para pagar. O que sucedia é que pagava mais tarde com juros altíssimos”. Mas Zulmira desceu ainda mais baixo: “A minha filha chegou a estar a estudar, ao computador, e baterem à porta para irem cortar a eletricidade, porque eu não tinha pagado”.

Para esta mulher, naqueles tempos, só havia duas coisas sagradas: “Pagar a prestação da casa e comprar comida. De resto, logo se via…” Apesar de tudo, a doméstica garante que viu, e continua a observar, casos piores do que o seu. “Vejo pessoas a contar os últimos trocos que têm na carteira. Que gastam tudo o que têm até ao último cêntimo. No meu caso, nunca cheguei a passar fome, nunca cheguei a esse ponto”.

Naquela altura, já em 2014, a filha de Zulmira apercebeu-se de que a mãe tinha um problema e pediu-lhe que se tratasse. Foi então que a jogadora procurou os Jogadores Anónimos onde começou a frequentar reuniões terapêuticas e a ser seguida por um psicólogo. “Estive quatro anos sem tocar em jogo”, garante a empregada doméstica.

Veio a pandemia. Zulmira estava recuperada, mas as reuniões presenciais dos Jogadores Anónimos foram canceladas e passaram a ser feitas online, via Zoom. A empregada doméstica ainda participou em algumas mas não se sentia habilitada. “Não tinha conhecimentos suficientes de computadores e não conseguia participar de forma ativa nessas reuniões”. Recaiu no jogo. “Nunca mais voltei a gastar as quantias que gastava na minha pior fase. Até agora, o máximo que gastei num dia foram cento e tal euros. Só que quero parar completamente. Agora já estou de novo nas reuniões presenciais, estou razoável, mas não posso dizer que estou 100% bem”.

 

Como parar de jogar

A solidão acaba por ser, muitas vezes, o gatilho para o jogo. “Tenho um trabalho em que estou sozinha. De vez em quando posso sair para ir beber um café e lá vai mais uma raspadinha. Noutras ocasiões, quando sinto esse impulso ligo para alguém amigo, tento controlar-me. Nem sempre é fácil”, admite. “Há uma tentativa de escape da realidade que parece, e só parece, inofensiva”, acrescenta a psiquiatra Maria Moreno.

Depois do jogo vem a frustração. “Fico arrependida e pergunto-me a mim própria porque é que fui jogar. Fico doente, com uma grande ansiedade”. Ainda assim, tem dias em que não resiste. “Vem-me uma furiazinha e lá vou eu raspar mais uma vez”. Zulmira aprendeu no programa de Jogadores Anónimos que o impulso de jogar é fruto das emoções. “Tanto jogamos quando estamos muito contentes, como jogamos quando estamos tristes ou zangados. Isto é uma doença. Temos formas de nos controlarmos e um dos conselhos que eu posso dar, a quem tem o mesmo problema, é que peça, por exemplo, a alguém de família que o vigie, para que não vá jogar”.

A psiquiatra Maria Moreno adiciona duas estratégias que podem ser úteis para mitigar o vício. “As pessoas devem estabelecer limites claros para o jogo, tanto em termos de frequência como de montantes gastos e evitar locais que potenciem o desejo de jogar, como cafés e papelarias, onde se vendem as raspadinhas”. Tal como Zulmira, que garante que só pode sair do vício quem tiver vontade, também a médica realça que, de facto, para acabar com a adicção é preciso “reconhecer o problema e procurar ajuda”.

Por estes dias, Zulmira está mais firme na determinação de não jogar. “A minha filha apanhou-me a raspar, no café em frente a minha casa. Só de me lembrar da imagem dela, que já sofreu tanto com isto, tento não jogar e tenho conseguido”. E é esta facilidade de acesso à lotaria instantânea que, na opinião de Zulmira, também a torna tão perigosa.

“A raspadinha está em todo o lado, é o jogo dos pobres. Fui apanhada no café, não fui a um casino. A raspadinha está nos cafés, nos quiosques, nas papelarias”. Maria Moreno tem a mesma perspetiva: “Há uma normalização da raspadinha. É vista, na nossa cultura, como uma atividade perfeitamente aceitável e sem risco”.

O T&Q quis ouvir sobre este tema a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a quem o estudo do CES/UM já foi entregue, mas não obteve resposta em tempo útil.