DIRECTOR: JORGE MORAIS  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Morte ao Portal das Finanças

A maior chatice de ser adulto é o trabalho de pagar impostos. Aquelas cores berrantes dos desenhos animados, que outrora nos levavam para o mundo da fantasia – o melhor –, são substituídas pelo opressivo azul do Portal das Finanças, que agora nos leva para o mundo real – o pior.

O problema dos impostos não é existirem – gosto de um Estado que emancipe. O problema dos impostos é darem trabalho e roubarem tempo. Imposto é roubo? Sim: de tempo. E agora tens de pagar IMI, e agora IRC, e agora WRC, e agora IVA. E agora tens de ir ao Portal das Finanças, e clicar onde diz ‘atividade’. Aqui? “Não, a outra que diz ‘atividade’, mas a verde”. E depois tens de clicar em sítios, e saber truques, e regimes de IVA, e artigos, e o diabo a quatro. Por favor: poupem-me à tortura fiscal da pós-modernidade.

O Estado social devia encarregar-se de contratar técnicos superiores que fizessem isso por nós, pessoas normais que valorizam o seu tempo. Uma espécie de contabilistas públicos que servissem a população no sentido de tratar dos seus impostos. Existindo, acredito que eles até fossem trabalhadores motivados, uma vez que o dinheiro que eles tributariam seria a fonte do seu salário. Era uma situação ‘win-win’. Nós, pessoas normais, não nos preocupávamos com isso, e eles, ‘super-adultos’ que sabem truques e artigos, ganhavam a sua vida assim.

Existo há quase 25 anos – pouco, sei. Já estive em sítios remotos, já me perdi em grutas secretas e já guiei em Marrakesh. Por mais sítios confusos ou escuridões assombrosas por que tenha passado, palavra de honra nunca ter estado num em que me sentisse tão desesperado como no Portal das Finanças. A náusea toma-me corpo, os traumas de infância a cabeça e a Ponte Vasco da Gama o espírito. A sensação é a mesma de um pateta a tentar desarmar uma bomba. “Porra, que faço? Será que corto o artº9 ou o 23º? Devo escolher a alínea a), z) ou Δ)?”. Arrisco.

BOOM! Falhei o artigo. A minha conta bancária chora, o contabilista ri-se. O Portal, impávido – indiferente ao humanismo do humano. Morra o Portal, morra.

A cozinha dos meus primos

Henrique Pinto de Mesquita