DIRECTOR: JORGE LEMOS PEIXOTO  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

“Não visto a camisola de nenhum clube”

O País conhece-o por tratar a bola sem fintas nem fífias. Rui Santos fala do futebol jogado fora e dentro das quatro linhas com independência e coragem. Não veste camisolas de clubes e não se amedronta perante a barulheira das claques. A bola, aqui no Tal&Qual, será dele já a partir do próximo número: nas nossas colunas, Rui Santos passa a entrar em campo todas as quartas-feiras
Manuel Catarino

Tal&Qual – É do Benfica, do Sporting ou do FC Porto?

Rui Santos – Nunca escondi que a minha família é maioritariamente do Sporting. Cresci com o meu tio [Vítor Santos, histórico chefe de Redação de A Bola] ligado ao Sporting de Alenquer. O meu pai era doente pelo Sporting. Esse excesso de paixão clubística irritava-me. Não gostava nada disso. O meu pai fez tudo para me catequizar. Mas eu ripostava. E ele achava que a minha resistência era um ato de benfiquismo. Morreu a pensar que eu era do Benfica.

T&Q – Gosta de futebol, mas não veste camisolas?

RS – Já então assumia as minhas posições independentemente dos clubes. Nunca gostei de fanatismos. Há uma diferença grande entre gostar de futebol e vestir a camisola de um clube. Não visto nenhuma. A generalidade das pessoas não entende isto porque está formatada para defender o seu clube até às últimas consequências.

T&Q – Hoje joga-se melhor futebol do que se jogava há 30, 40, 50 anos?

RS – Não creio. Hoje, os treinadores escravizam os jogadores. Antes, os jogadores estavam por cima dos treinadores. A ditadura do comando técnico impôs-se de tal maneira que as equipas se transformaram em máquinas. Os treinadores adaptavam-se mais às características das equipas e davam muito mais liberdade. A maior parte do discurso dos treinadores desse tempo era: ‘vão lá para dentro, suem a camisola e divirtam-se’. Hoje, têm uma obsessão sobre o jogo, em que o mais importante é o cumprimento de instruções para abrir e fechar os espaços. Deixaram de respeitar aquilo que para mim é essencial num jogo: a liberdade.  Os novos treinadores são uma espécie de engenheiros de maquinaria. Não dão espaço à criatividade.

T&Q – O futebol jogado perdeu o encanto?

RS – Nos últimos 15, 20 anos emergiram dois futebolistas extraordinários, o Cristiano Ronaldo e o Messi. Quando se exige a esses jogadores, e a outros, que se submetam ao primado da tática o futebol jogado perde encanto. Quem gosta de futebol quer ver os grandes jogadores a dar largas à sua criatividade e àquilo que têm de mais puro.

T&Q – Qual é o tipo de futebol que o entusiasma?

RS – Sou pelo futebol de pressão, pelo futebol de ataque, pelo futebol-espetáculo. Identifiquei-me com muitas equipas do FC Porto, com muitas equipas do Benfica e com muitas equipas do Sporting que jogaram o futebol de que gosto. O FC Porto, por exemplo, jogou assim com o Artur Jorge. O Benfica jogou assim com o Erickson e com o Jorge Jesus e está a jogar assim com o Roger Schmidt.

T&Q – E o atual FC Porto de Sérgio Conceição?

RS – O FC Porto do Sérgio Conceição tem um problema. Houve uma degradação qualitativa dos plantéis nos últimos anos. Se não fosse a liderança do Sérgio Conceição o FC Porto estaria numa situação muito mais delicada. Associo os êxitos mais recentes do FC Porto ao trabalho de Sérgio Conceição. Ele tem sido capaz de tirar dos jogadores de menor qualidade exatamente aquilo que quer.

T&Q – Há quem diga que Cristiano Ronaldo não joga na seleção o mesmo que nos clubes. Concorda?

RS – O desempenho do Ronaldo tem muito a ver com aquilo em que se transformou o futebol e, por arrasto, a federação e a seleção. Temos uma federação antes de Cristiano Ronaldo e uma federação depois de Cristiano Ronaldo. Uma federação pobre deu origem a uma federação rica. Ele contribuiu para o enriquecimento da federação. Um grande jogador converteu-se numa marca poderosa e as grandes marcas atraem receitas. A federação continua a ter receitas à conta do papel do Cristiano Ronaldo. Tenho um imenso respeito por aquilo que o Cristiano Ronaldo construiu.

T&Q – Ronaldo nada deve à federação?

RS – Ronaldo deve tudo o que tem a várias coisas. Deve a si próprio, ao seu talento, mas também à especulação imensa que existe no futebol. Esta indústria criou um valor acrescido que não é razoável. Há muitos jogadores que ainda não deram dois pontapés na bola e já estão transferidos com comissões de milhões.

T&Q – Ronaldo é o Sol e a seleção gravita à sua volta?

RS – A Federação Portuguesa de Futebol tem muita dificuldade em gerir a situação do Cristiano Ronaldo. Eu não me esqueço de, por causa de tirar partido da marca Cristiano Ronaldo, o que a federação teve de fazer, até colocar em causa alguns jogadores, para que a seleção se encaixasse no Cristiano Ronaldo. Tiveram de ser feitas muitas concessões.

T&Q – Ao nível da escolha do treinador da seleção?

RS – Sim. Fernando Santos foi escolhido para serenar e amenizar a relação de alguns jogadores com Cristiano Ronaldo. A própria federação teve de se organizar de forma a pacificar o relacionamento da seleção com Ronaldo. Carlos Queiroz e Paulo Bento sabiam que, tendo Ronaldo, teriam de fazer algumas concessões. Passaram muito mal por causa de não quererem perder a sua individualidade enquanto treinadores. Saíram. Scolari foi um caso diferente, porque ele tem uma personalidade de agregador.

T&Q – Do ponto de vista da federação Ronaldo teria de jogar sempre?

RS – Os treinadores estavam obrigados a pô-lo a jogar em todas as circunstâncias e mais algumas. Não só pelo valor dele enquanto futebolista, mas também pelo valor que a marca representava para a federação. Geraram-se aqui uma série de equívocos. Ronaldo foi, naturalmente, envelhecendo. Jogadores com independência e autonomia financeira, e que, entretanto, passaram a ser figuras de proa nos seus clubes, estrelas maiores de outros campeonatos, também reclamaram papel de relevo.

T&Q – Fernando Santos fartou-se desse papel de apaziguador?

RS – Fernando Santos lá foi conseguindo gerir as coisas durante alguns anos. Mas com a consolidação do estatuto de alguns jogadores nas grandes ligas europeias tudo passou a ser mais difícil. O Cristiano Ronaldo deixou de ser o jogador indiscutível para ser a marca indiscutível. Fernando Santos deu-se conta de que a seleção está tecnicamente preparada para jogar sem Ronaldo.

T&Q – Ronaldo ainda tem lugar na seleção?

RS – Fez muito pelo futebol português. Não nos podemos esquecer de que Cristiano Ronaldo ainda valoriza Portugal. Mesmo considerando que Cristiano Ronaldo de hoje não é o mesmo de há cinco anos, a federação e a seleção devem fazer um esforço para o manter enquanto desportivamente for possível.

T&Q – O novo selecionador conta com ele?

RS – Estou convencido de que Roberto Martínez foi contratado para a federação tirar de Cristiano aquilo que ele ainda tem para dar à seleção.

T&Q – A federação também vai ajudar Martínez, como fez com Fernando Santos, a ludibriar o Fisco?

RS – Quando se soube, pelo Tal&Qual, que fugiu ao Fisco com a conivência da federação, Fernando Santos ficou sem condições para continuar como selecionador. Nem devia ter ido ao Qatar.