DIRECTOR: JORGE LEMOS PEIXOTO  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Notícia falsa atinge deputado do Chega e põe o partido em polvorosa

Quem será a próxima vítima? Esta é a história de quatro falsários portugueses que nos últimos dias fizeram chegar informações falsas ao Tal&Qual e a outros jornais. Objectivo: atingir Pedro Pessanha, deputado do Chega. André Ventura quer “pôr em marcha mecanismos de defesa”
Bruno Horta

Atenção realizadores de cinema, encenadores de teatro e directores de ‘casting’: nasceu uma estrela! Chama-se Rui Fernando Assis Costa e tem 55 anos. Quando se trata de fingir, é capaz de tudo. Até consegue ficar de olhos marejados perante desgraças que nunca existiram. Mas não actua sozinho — e se calhar, vendo bem, até é um canastrão. Da trupe dele fazem parte mais três impostores: João Pedro Xavier Pereira (que se diz judeu espanhol e que na internet se faz passar por Yosef Cohen, entre outros pseudónimos), João Lemos Esteves (professor da Faculdade de Direito de Lisboa caído em desgraça) e ainda uma mulher da qual só se conhece o rosto por enquanto.

Por estes dias, os quatro estarolas congeminaram um plano falhado que consistia em disseminar pela imprensa portuguesa e pelas redes sociais da internet um grave rumor acerca do deputado do Chega Pedro Pessanha: que este teria tido relações sexuais com uma menor de 15 anos e que a teria violado. A informação surgiu no TikTok e no Telegram de uma obscura espanhola que se apresenta como Blanca White (ou Blanca Sisó) e que diz ser psicóloga clínica, além de “divulgadora da verdade” e “catalisadora de consciências”.

Num curto vídeo publicado a 1 de Março, Blanca White afirmava sem grande detalhe que tinha tido acesso aos “áudios” (mas era apenas um) de uma “mãe portuguesa” cuja filha teria sido violada por Pedro Pessanha. Acrescentava que esses “áudios” já estavam “nas mãos da polícia” — sublinhando, claro, para prevenir problemas legais, que todos são inocentes até a Justiça declarar o contrário. O áudio surgiu depois no canal de Blanca White no Telegram: ouve-se uma voz feminina a ler um texto e a garantir que “Pedro Pessanha violou a minha filha”.

Como é que o T&Q sabe que a alegação é falsa? Porque é que as informações foram transmitidas em primeiro lugar por uma ‘influencer’ espanhola? E qual a ligação disto tudo a Rui Costa, João Pereira, João Lemos Esteves e à mulher sem nome? Deve o leitor sentar-se confortavelmente para apreciar os próximos parágrafos: neles se revela pela primeira vez como se atam as pontas soltas de um caso que muito provavelmente teve origem dentro do próprio Chega — e que está a deixar o partido de André Ventura em polvorosa.

Ganha consistência a ideia de que militantes ou ex-militantes do Chega estão ligados a este boato. A hipótese é colocada pelo próprio visado, Pedro Pessanha, em entrevista ao T&Q (nestas páginas) e também pelo líder, André Ventura. “Há uma névoa de suspeição e desconforto. Queremos tentar perceber como foi montado o boato e quais as ramificações internas e externas. Boatos como este criam redes de suspeição”, admitiu ao T&Q, sublinhando, sem explicar, que “o partido tem de pôr em marcha alguns mecanismos de defesa”. Ventura sustenta que alguns militantes e deputados do partido temem vir a ser os próximos alvos de mentiras semelhantes.

 

Blanca White (esq.) difundiu a atoarda nas redes sociais a 1 de Março. Dias depois, Rui Costa (ao centro, em foto de arquivo apresentou-se ao T&Q como pai da suposta vítima; e num dos encontros com o nosso jornal apareceu com a sua suposta mulher (dir.)

 

Mentiras e ‘fake news’

Comecemos pela pista espanhola. É a partir de Badajoz que Carlos Aurelio Caldito Aunión, um professor reformado com queda para o activismo político, dirige o site informativo Voz Ibérica, que se descreve como “a única plataforma de comunicação sem censura para a comunidade ibero-americana”. Carlos Caldito terá conhecido João Pedro Xavier Pereira por volta de 2020, através de um presumível amigo comum que é empresário em Mérida. Conheceram-se sem nunca se conhecerem: comunicavam apenas através de mensagens escritas e telefonemas. Pereira dizia chamar-se Yosef Cohen, judeu espanhol que viveria em Portugal, ligado aos serviços secretos de Israel e com bons contactos na extrema-direita portuguesa. Carlos Caldito, que já foi próximo do Vox (partido espanhol considerado equivalente ao Chega), aceitou que Cohen/Pereira passasse a escrever para o Voz Ibérica artigos de opinião de ideologia radical.

Em 2020, por intermédio de Cohen/Pereira, Caldito conheceu outro português: João Lemos Esteves, professor assistente convidado na Faculdade de Direito, ex-colunista do semanário Sol (até Abril de 2021) e uma voz da direita portuguesa que apoiou entusiasticamente a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência da República. Licenciou-se em 2011 e fez mestrado em 2014 em Direito Constitucional. Durante algum tempo, Lemos Esteves foi visto como um ‘enfant terrible’ do comentário político, um jovem ousado com ideias não convencionais. Mas nos últimos anos parece ter-se radicalizado, a ponto de sustentar e difundir supostas teorias da conspiração e de difamar várias figuras políticas através dos seus escritos. É um defensor das teses judaicas mais ortodoxas.

O jornal Público dedicou-lhe um artigo em Abril de 2021: “Na Faculdade de Direito, onde dá aulas há oito anos, o jurista mantém a imagem de ‘solitário’ e ‘um bocadinho idiossincrático’ que tinha em estudante. Mas nos últimos anos afastou-se do PSD — onde foi militante activo —, juntou-se a sites conspirativos espanhóis que espalham mentiras e ‘fake news’ e os seus textos nos jornais portugueses passaram da análise política para a fantasia mirabolante”, resumiu o Público.

Ora, mais até do que Cohen/Pereira, foi João Lemos Esteves quem se tornou colaborador assíduo do Voz Ibérica, ao mesmo tempo que produzia artigos de opinião para outros sites de conteúdos duvidosos: Qoshe, Alianza24, Total News, etc. Entre 2020 e 2022, o jurista assinou 31 textos para o Voz Ibérica. Mas Caldito terá começado a recuar. A prosa de Lemos Esteves tornara-se delirante. O director do site, que chegou a encontrar-se com o colunista pelo menos uma vez em Portugal, decidiu ir reduzindo o contacto — até que Lemos Esteves e Cohen/Pereira deixaram de escrever na plataforma. Porém, antes de saírem, deu-se um facto que só agora tem toda a relevância.

A 10 de Setembro de 2020, Caldito publicou uma entrevista, ainda hoje online no Voz Ibérica, com Pedro Pessanha — que à época ainda não era deputado nem líder da distrital de Lisboa do Chega, como actualmente acontece. A entrevista aconteceu por escrito, via correio electrónico. As perguntas foram enviadas por Caldito a Lemos Esteves e a Cohen/Pereira, que por sua vez as fizeram chegar a Pedro Frazão (actualmente deputado do Chega). E foi este quem finalmente as pôs no e-mail de Pessanha, que respondeu. Eis a ligação a Espanha. Eis como se fez o trânsito de contactos entre portugueses e espanhóis ligados ao Chega e ao Vox. Nada fora do comum — mas fundamental para se perceber o que veio a seguir.

 

Rui Costa, de óculos de sol, na atualidade

 

“Tu tem calma, filha”

Março de 2023. Um homem que fala espanhol com sotaque português, e que diz ser galego, contacta por telefone o Tal&Qual — às 14h30 do dia 2, uma quinta-feira. O número dele é da Sérvia (indicativo 381). Identifica-se como Yosef, garante saber mais sobre as alegações contra Pedro Pessanha surgidas horas antes nas redes sociais de Blanca White. Propõe para esse mesmo dia, num café perto da estação de comboios da Amadora, um encontro entre o nosso jornal e o suposto pai da suposta vítima — sem nos dar o telefone do pai. Concordamos e perguntamos: qual é o seu interesse nesta história? “Queremos destronar o Chega”, responde. “Nós, povo judeu, temos uma dívida para com seis milhões de irmãos no Holocausto. Antes que o nazismo cresça, temos de o cortar, como se fosse a cabeça de uma serpente”.

A partir daqui o falso judeu espanhol — tão espanhol que numa mensagem de telemóvel escreveu “lo padre” em vez de “el padre” (‘o pai’) — vai ser o controleiro de mais três encontros, sempre no mesmo café da Amadora: O Forno, na Avenida da República. Nesta altura já outros dois jornais estão no encalço da história: o Observador e o Correio da Manhã. Mas não chegam a encontrar-se com estes falsários. Sabe-se agora que Cohen/Pereira é o mesmo João Pedro Xavier Pereira nascido em Angola em 1970 e que em 2013 foi condenado pela Justiça portuguesa a mais de sete anos de prisão efectiva por diversos crimes, incluindo burla, falsificação de documentos e insolvência dolosa. Será casado com uma cidadã sérvia.

Cohen/Pereira nunca aparece no café, funciona como secretário e mandante do ‘presunto’ pai. Sempre ao telefone. E quem é o pai? Pois não há coincidências: é Rui Costa, o artista com que iniciámos esta reportagem, o homem por detrás dos pseudónimos Rui Costa Moreno ou apenas Costa Moreno — que também assinou prosas difamatórias e infundadas no Voz Ibérica e no Total News.

O companheiro de estrada de Cohen/Pereira está agora à nossa frente num café da Amadora, exibindo um ar sofrido e escolhendo palavras dolorosas para se referir à putativa filha hipoteticamente abusada por Pedro Pessanha. Diz ter nascido no Barreiro e ser vendedor de pipocas em feiras. Só não consegue apresentar uma narrativa que se sustente.

Desde logo desconhece o dia do nascimento da filha. Ignora o dia exacto do alegado abuso — por fim, com muito esforço, lá consegue verbalizar que terá sido numa sexta-feira, 12 de Agosto de 2022. Mas onde? “Não sei, acho que foi nas Docas. Eu nem quis perguntar mais nada à minha filha, porque se souber a história toda sou capaz de ir atrás desse senhor e ainda faço uma loucura. Até tenho escondido isto dos ciganos que conheço das feiras. Se eles sabem, fazem-lhe a folha”. Patranhas atrás de patranhas. Acede a ser fotografado, mas apenas com óculos de sol. “Preciso de me proteger. O deputado é um homem poderoso, pode mexer os cordelinhos e impedir que as Câmaras Municipais me dêem licença para vender pipocas”.

Num segundo encontro, volta a repetir a cantilena e não acrescenta pormenores. Queremos falar com a filha, insistimos. Ele nega, com o argumento de que a rapariga está traumatizada e agora vive em Londres e ali trabalha num hotel e, coitadinha, é explorada pelos patrões. Rui Costa cheira a álcool, tem a pele curtida pelo sol, as unhas sujas, roupas velhas, um gorro na cabeça.

Terceiro encontro no mesmo café. Desta vez aparece também a suposta mãe, uma mulher que não quer dizer o nome, com óbvios problemas de saúde. Triste, desgastada, insegura. Também não sabe a data de nascimento da filha, nem o dia do abuso, muito menos aceita mostrar uma fotografia da rapariga. Nada. Finalmente, num quarto encontro, mais uma vez combinado através do judeu espanhol que afinal é português e nunca terá lido a Torah, acedem a que o T&Q converse com a filha por videochamada na presença do pai — a mãe não comparece.

A incerta filha é que nos envia por e-mail um endereço para uma chamada via Google. À primeira não funciona. Yosef Cohen/Pereira liga-nos e diz que a filha nos enviará um segundo endereço — ou seja, o maestro desta orquestra até está mais próximo da filha do que o próprio pai. A encenação começa a esboroar-se. O mail com o segundo endereço inclui um nome próprio escrito no alfabeto hebraico: יוסף, que significa… Yosef. São os mesmos caracteres que no primeiro encontro tínhamos vislumbrado na lista de contactos do telemóvel do suposto pai. Bate certo. É tudo uma mentira.

Quanto à conversa com a filha que não é filha, representa o momento da derrocada. Rui Costa, ao nosso lado, já fora do café, grita-lhe deste lado do telemóvel: “Tu tem calma, filha, tem calma. Fala aqui com o senhor”. E a filha, que nunca liga a câmara, é afinal um homem em grotesca voz de falsete, tão atingida na sua dignidade que verbaliza esta pérola: “Ele apalpou-me as mamas todas”. Os actores, o palco e o cenário sucumbem. Fim.

Confrontado pelo T&Q, Rui Costa optou por não responder e o mesmo fizeram Cohen/Pereira, João Lemos Esteves e Blanca White. A Procuradoria-Geral da República não nos respondeu em tempo útil sobre se está a investigar estas pessoas.

 

Pedro Pessanha: “Comecei por desvalorizar o boato”

Considera-se “radical, mas não extremista”. Aos 55 anos, o deputado do Chega Pedro Manuel de Andrade Pessanha Fernandes vê-se envolvido em alegações de abuso sexual. Licenciado em gestão imobiliária, militou no CDS na década de 90. Saiu de Portugal no Verão Quente de 1975, passou por Madrid e Bruxelas e regressou em 86. Foi oficial da Marinha e trabalhou em Luanda no BES Angola a gerir o património imobiliário. Vive em Cascais com a mulher e os dois filhos. Aproximou-se do Chega em 2018.

Tal&Qual: Não restam dúvidas de que estamos perante um boato, mas a pergunta é obrigatória: o senhor esteve envolvido na violação de uma menor?

Pedro Pessanha: É repugnante, é falso, é mentira. Abomino a ideia de violação e a pedofilia. Só quem não me conhece é que seria capaz de dizer algo tão nojento como isso.

Quando teve conhecimento destas alegações?

No dia 2, através de uma partilha de WhatsApp de alguém que teve um papel importante no partido e que entretanto se incompatibilizou com André Ventura: o senhor José Dias. Comecei por desvalorizar o boato, mas rapidamente percebi, pelo número de pessoas preocupadas com a minha imagem, que isto me iria prejudicar na vida familiar e partidária.

É aí que decide ir à Judiciária?

Arranquei a meio do plenário na quinta-feira à tarde [dia 2]. Fui sozinho, sem advogado, e apresentei queixa contra a ‘influencer’ espanhola, portanto contra terceiros, e contra todos os que andavam a difamar a minha imagem nas redes sociais através de partilhas do vídeo.

Quem está por detrás disto?

A pergunta é: quem tem interesse em denegrir a minha imagem, a imagem do partido e a imagem do dr. André Ventura?

É esse o objectivo?

Acredito que sim. Pode ter origem interna, ou seja, interna mesmo ou dissidentes do Chega, que, devido ao facto de estarem de costas viradas contra nós, possam estar interessados, de forma vingativa, em denegrir a minha pessoa. Ou então origem externa, de quem teria a ganhar com este ataque ao Chega.

E quem teria a ganhar?

Não vou levantar essa suspeição. A distrital de Lisboa do Chega vai a eleições. Não há data ainda, não está nada marcado. Enquanto deputado, e presidente da distrital, não quero acreditar que alguém de dentro, que possa vir a concorrer — contra mim ou não, ainda não decidi se me vou recandidatar —,faça este tipo de acções.

Tem suspeitas fundadas sobre quem?

Só posso dar nomes de pessoas que partilharam o vídeo nas suas redes sociais: Nuno Afonso, José Lourenço e Hugo do Rosário. Também Júlio Paixão, o nosso antigo presidente da distrital de Portalegre. O caso mais grave é o de Nuno Afonso, que continua a ser vereador em Sintra depois de se ter saído do Chega. Ele partilhou o vídeo e ainda escreveu que “a verdade virá ao de cima”. Só isto já é uma vingança pessoal. Não acredito que ele esteja na origem do boato, mas fez a partilha.

Está num partido com discurso radical, com atitude agressiva, com ideias discriminatórias em relação a minorias, com dirigentes que partilham ‘fake news’. Portanto, o senhor não é vítima neste caso. Quem anda à chuva, molha-se. Concorda?

Com este requinte de malvadez, não é normal. Há um combate político que tem de ser feito, certo. Temos as nossas ideias, certo. Vale tudo? Não vale. Vale denegrir e difamar? Não.