DIRECTOR: JORGE LEMOS PEIXOTO  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

O bufo

Tropeçamos hoje por aí em apelos à denúncia e à bufaria, a como se bufar fosse agora recomendável ou mesmo respeitável. Há que chamar a besta pelo nome.

Não me refiro à “delação premiada”, figura de acordo entre o Ministério Público e um acusado, pela qual quem confessa o que sabe tem necessariamente um nome e uma cara. Não. Falo do reles delator, do denunciante anónimo, do miserável bufo que lança a acusação e esconde a mão. Parece que, nesta era de caça às bruxas, assistimos à normalização, para não dizer à consagração, do delator inimputável.

Nos tempos de Pina Manique chamavam “moscas” a esta escória que andava a escutar pelos botequins para depois delatar aos agentes do Intendente, a coberto do segredo e acrescentando as mais torpes invenções. E eram “moscas” precisamente por voarem entre poias de esterco e transmitirem ao moscardo-mor a sua mensagem infecto-contagiosa.

Nos tempos da “formiga branca” cumpriram a mesma ignóbil função, corroendo com a sua baba peçonhenta as traves sociais da república e desgraçando a vida a quem, a coberto do anonimato, acusavam de crimes hediondos que nunca haviam sido cometidos.

Refizeram-se nos tempos da PIDE sob a forma de bufos que a troco de um pires de lentilhas desciam às catacumbas mais sórdidas e infames da natureza humana. E entre o bufar dos informadores e o bufar da escatologia não havia distância.

Pelos vistos, estão agora a ser resgatados sob a forma de denunciantes anónimos a quem pessoas e instituições aparentemente responsáveis dão crédito e louvor.

Tenho à minha frente o recorte de uma notícia sobre um padre que foi acusado anonimamente de ter abusado de crianças. Apontado na praça pública como monstro, filmado pelas televisões como no tempo em que os acusados iam dos Estaus à pira em procissão, vem-se afinal a saber que a difamação não tinha fundamento.

Diz a notícia que a chamada Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica não procedeu à menor despistagem, triagem, análise ou investigação da cobarde bufaria anónima, limitando-se a receber e a transmitir a delação e a inscrevê-la nos anais públicos da vergonha. Entre a calúnia e o pregão do nome do caluniado nada se interpôs.

Assim se queimavam as bruxas no Terreiro do Paço, assim se mandavam para as enxovias os Bocages desta vida, assim se afogou a república em desonra, assim a PIDE se enterrou na ignomínia da impunidade.

Apelar à bufaria, normalizar a delação e premiar o anonimato é descer à indignidade. O homem que é homem, quando quer acusar, levanta-se e fala. Abaixo disso, só os vermes.   

Jorge Morais

Carta da Aldeia

Jorge Morais