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O esconderijo da elite ucraniana

É na zona de Saint-Jean-Cap-Ferrat, na majestosa Riviera Francesa, que os mais ricos dos ricos da Ucrânia comem e bebem do melhor, instalados em mansões ou hotéis de luxo. Fugiram do país para não terem de participar na guerra. O presidente do Dínamo de Kiev é só um entre muitos
Isabel Laranjo

A pitoresca localidade francesa de Cap-Ferrat está transformada num autêntico paraíso para oligarcas ucranianos. Por ali, não há combates nem bombardeamentos. O jornalista ucraniano Mikhail Tkach, do diário Ukrainska Pravda, até conseguiu filmar um breve encontro, durante o ‘jogging’ matinal, entre o magnata russo Igor Ibramaovich e um alto funcionário da polícia ucraniana, Serhiy Vyazmikin.

Aparatosos automóveis de matrícula ucraniana ou iates destes supermilionários ucranianos podem ser observados por quem quer que passe. “Bastam uns minutos para encontrar uma mão-cheia deles, o que pode dar uma ideia da dimensão da situação”, comentou Mikhail Tkach, citado há dias pelo jornal espanhol El Mundo.

Por ali há belas paisagens e lojas das melhores e mais caras marcas. Uma mulher apresenta-se como Alena. Assoma ao portão de casa – uma moradia branca com piscina e jardim à vista – enquanto um potente Mercedes entra para a garagem. “Vim convidada por amigos”, contou a Eric Petersen, jornalista do Le Monde. Os dias são passados entre a mansão e as compras na exclusiva Beaulieu-Sur-Mer. Fecha-se o portão. Os ucranianos ricos preferem a discrição.

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, o já apelidado ‘Batalhão do Mónaco’ – nome irónico para descrever estes refugiados de luxo – começou a desembarcar em Cap-Ferrat. Mas também em Nice e, claro, no Mónaco. Conta-se que nestes três locais estão concentradas 80 das maiores fortunas ucranianas, pertencentes a empresários, políticos e até ao presidente de um dos maiores clubes de futebol da Ucrânia, Ihor Surkis, do Dínamo de Kiev, e ainda o irmão, presidente da Liga de Futebol Ucraniana, Hrihoriy Surkis.

Sucede que estes homens, bem como os seus filhos, estão a violar a Lei Marcial decretada por Kiev e que não permite a saída do país de homens até aos 60 anos de idade, pois são considerados aptos para serem chamados a combater na guerra frente à Rússia.

 

 

Vodka, caviar e milhões

Para estes oligarcas, tanto faz. Ninguém os apanha, apesar de o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), bem como os serviços de espionagem daquele país de Leste, garantirem que estão em cima deles. Os ucranianos poderosos continuam a passear-se nos jardins das suas ‘villas’ ou pelo Mediterrâneo nos seus deslumbrantes iates. Outros instalam-se em suítes de hotéis fabulosos, como fizeram os irmãos Surkis. Desembolsaram uns simples dois milhões de euros para terem tudo o que querem, à hora que querem, no hotel Montecarlo Bay, no Mónaco.

O dono do Shaktar Donetsk, Rinat Akhmetov, também por aqui anda, mas justifica a fuga da Ucrânia com motivos solidários. Alega ter doado 100 milhões de euros ao seu país em ajuda humanitária, a partir da pacata comuna de Saint-Jean-Cap-Ferrat. Com tantos milhões à solta e a exuberância própria dos oligarcas, até já há quem compare a localidade da Riviera a Lontcha Zaspa, um bairro de ricos nos arredores de Kiev, localizado no sossego e na privacidade do interior de uma floresta.

Longe da miséria, da falta de comida, do lixo, dos problemas de saúde pública gerados pelas inundações após o rebentamento da barragem de Nova Karhovka, na Côte d’Azur não falta vodka nem caviar. E quando não há vontade para estar ao sol, vai-se para uma estância de esqui, como a afamada Courchevel. Foi ali que o empresário e antigo deputado Konstantin Zhevago, dono do grupo mineiro Ferrexpo, foi detido em dezembro, acusado de vários crimes financeiros.

Em Courchevel foram ainda avistados Andrey Verevskiy, um grande empresário agrário, bem como Viktor Pintchuk, milionário dos média. Este último já tem 62 anos, mas, mesmo sem idade para já não ir à guerra, tem sido bastante criticado no seu país, por se ter ausentado. Pintchuk também tem o seu quartel-general sediado em Saint-Jean-Cap-Ferrat. O jornalista do Le Monde chegou à fala com um dos seus seguranças, que se manteve impassível: “Daqui nada sai; aqui nada entra”, referiu apenas o homem, entre dentes.

Apesar da fuga do ‘Batalhão do Mónaco’ há quem se tenha mantido firme e hirto na Ucrânia, preparado para dar o corpo às balas. Bom, pelo menos um oligarca: Petro Porshenko, antigo deputado ucraniano e dono do império de chocolates Roshen. Os outros, muitos deles, estão nas suas sete quintas.