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O espião que veio do calor

A extraordinária vida de aventura e equívoco de Luís Lupi dava um livro. E deu: escreveram-no Wilton Fonseca e Gonçalo Pereira Rosa – e lê-se como um romance de espionagem. Que também é…
Jorge Morais

Terá Luís Caldeira Lupi sido, verdadeiramente, o enigmático agente secreto anglófilo cuja pele ele vestiu durante dezenas de anos? Quem, como eu, o via passar no Chiado, no início dos anos 70, esguio na sua figurinha deslizante, a barbicha septuagenária pintada de um preto ruço, as unhas envernizadas, a gravata com alfinete, os olhos varrendo a entrada d’A Brasileira por detrás dos óculos fumados, até podia acreditar. Havia em redor desta criatura única uma aura de mistério que só o 25 de Abril viria descompor. Mas quando aí chegámos já ninguém podia tirar-lhe uma carreira, ainda que ziguezagueante, como abencerragem da Imprensa, agente de ligação e homem de negócios.

‘Jornalista, Espião e Empresário / A vida aventureira de Luís Lupi nos corredores do Estado Novo’ é, precisamente, o título do livro que lhe é dedicado por dois grandes jornalistas, Wilton Fonseca e Gonçalo Pereira Rosa, e que o editor António Baptista Lopes, da Âncora, acaba de publicar. Uma vez lido, praticamente não restam zonas sombrias na biografia de Lupi. E é então que o retrato do grande espião, que falava com o MI6 como quem bebe copos de água, vivia à tripa-forra numa casa apalaçada e recebia telefonemas de Salazar a horas mortas – cede lugar à aguarela tristemente outonal de um homem na falésia a contar os tostões, fiel a quem dele desdenhava, inimigo de quem poderia tê-lo apreciado, africanista numa Europa indiferente, situacionista exaltado que nunca foi verdadeiramente recebido no Estado Novo que ele idolatrava.

 

África

Pode dizer-se que a ‘persona’ de Luís Lupi foi talhada pelo próprio a golpes de espátula grossa, deixando salpicos descuidados de tinta numa biografia que ele teria desejado imaculada.

Talvez as grandes vastidões de África tivessem moldado a ambição destemperada que foi toda a sua existência. Nascido em Lisboa em 1901, Luís Lupi foi com a família para Lourenço Marques com dois anos. Filho do director de Tráfico dos Caminhos de Ferro da colónia, estudou num colégio de padres irlandeses do Transvaal Oriental, viveu uma temporada no Reino Unido e voltou a Moçambique para começar por exercer, adolescente ainda, o ofício de agrimensor. Mas depressa se insinuou na Imprensa de Língua inglesa da região, tornando-se colaborador de jornais sul-africanos e moçambicanos – uma bagagem que lhe será preciosa quando, em 1927, se radicar de armas e bagagens na Metrópole.

África, os seus contactos no mundo anglo-saxónico e uma incipiente carreira no jornalismo são agora os trunfos de que se vale para se tornar oficialmente jornalista, em Lisboa, no mesmo ano em que Salazar pela primeira vez toma conta da pasta das Finanças. Correspondente de agências e jornais ingleses, colaborador da Agência Geral das Colónias e do Jornal da Europa, redactor fugaz de títulos matutinos, é pela mão do Conde de Penha Garcia, então presidente da Sociedade de Geografia, que Lupi começa por firmar a sua fama de “africanista”.

Fura-vidas, bem-falante, sempre impecavelmente paramentado, uma ‘pêra’ a dar-lhe o toque de coronel rodesiano, Lupi começa a sonhar alto. Faz-se iniciar na Maçonaria (uma passagem breve de que tanto ele como a Augusta Ordem se arrependerão), passa por contestatário e rebelde “avançado”, adepto de Norton de Matos e Gago Coutinho, até se render à Ditadura Nacional e ao Estado Novo.

Com o seu perfil de “africanista” já consolidado, Luís Lupi trata agora de conquistar um lugar no regime. Mas aí nada correrá como deseja.

 

Espião

Uma inimizade desproporcionada com António Ferro afastou-o sem apelo do Secretariado da Propaganda, órgão por onde passavam os principais financiamentos dos projectos comunicacionais que sucessivamente congemina e apresenta. Com Salazar também não tem sorte: ao seu feitio histriónico responde o ministro, depois presidente do Conselho, com um gelo decepcionante. Um episódio de equívoco leva-o mesmo a ser detido, por alguns dias: uma forma muito clara de Salazar marcar distâncias. A PIDE sempre desconfiará dele, chegando a pôr-lhe o telefone sob escuta. Arguto, deve então ter percebido a urgência de uma segunda vida.

Nasce agora ‘Lupi, o agente secreto’ – um epíteto que, “se non è vero, è ben trovato”. O irrequieto jornalista, valorizando as suas relações com a Associated Press e vários jornais de Língua inglesa e os seus contactos informais no Reino Unido, começa a dar a entender que trabalha secretamente para o Governo britânico. Não o afirma abertamente, mas tampouco o nega. Oferece-se como intermediário junto de empresas inglesas, passa recados e envelopes para Londres, viaja com frequência para o Reino Unido e recebe constantemente chamadas de ‘partners’ do outro lado da Mancha. O início da guerra, em 1939, acentua a sua fama como “homem dos ingleses”. O próprio se afirma “aliadista” numa Lisboa partida ao meio entre anglófilos e germanófilos.

À sombra desta fama torna-se sócio e administrador de empresas que lhe dão a possibilidade de viver acima do que os proventos de jornalista lhe permitiriam, com quinta no Magoito e casa senhorial no Dafundo. Assim atravessa a guerra, mas já com nova ideia fixa a empolgá-lo: a criação de uma agência especializada em assuntos ultramarinos, que acabará por ser a primeira agência noticiosa portuguesa.

 

A Lusitânia

Sem poder contar verdadeiramente com Salazar, o indómito Lupi volta-se para o ‘delfim’: Marcello Caetano. A ligação de Caetano às colónias era forte e o seu interesse no desenvolvimento de vias de comunicação entre os territórios africanos e a Metrópole fora já publicamente referida. A aproximação entre os dois homens é mutuamente predatória: Marcelo precisa de alguém decidido que possa montar-lhe uma agência “virada para África”, Lupi precisa de alguém no poder que lhe financie a aventura. Em 1944 nasce a Lusitânia, com Lupi na presidência e Marcello titular da pasta das Colónias.

A agência Lusitânia passará a partir de então a ser o principal cartão de visita de Luís Caldeira Lupi – ele que já fora agrimensor, repórter, espião e homem de negócios. Até ao 25 de Abril, a Lusitânia será a sua permanente boia de salvação. Quanto tudo o mais falha, quando à sua volta as seguranças antigas se desmoronam, é da Lusitânia que ele faz último reduto. E é à caixa-forte da Lusitânia que ele recorre para sustentar uma vida que, de ano para ano, se torna mais e mais insignificante. Salazar ainda lhe telefona a desoras, sempre frio, para corrigir uma notícia ou enviar uma precisão. Mas o regime declina. E quando, em 1968, o seu velho ‘amigo’ Marcello se tornou presidente do Conselho, já Luís Lupi, em contra-corrente, se tornara seu detractor, agarrando-se a uma imerecida reputação de salazarista empedernido. Uma vida sempre ao contrário dos ventos da conveniência, uma aura sempre maior do que a obra. Para saber mais, leia-se por favor ‘Jornalista, Espião e Empresário’.

Wilton Fonseca e Gonçalo Pereira Rosa, os autores desta obra magnífica, captaram com precisão a personalidade de Luís Caldeira Lupi, para além de terem levado a extremos o rigor na pesquisa, fundida no bronze de uma narrativa hábil e cativante. São hoje os mais destacados investigadores da História da Comunicação Social em Portugal – e é um privilégio ser camarada e amigo de ambos.