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O influente filho de Marcelo

O filho do Presidente Marcelo sai ao pai. Tal pai, tal filho – sempre de braços abertos para um abraço, de mão estendida para um cumprimento efusivo, sempre pronto para ajudar quem precisa. A mãe das duas bebés luso-brasileiras que foram tratadas em Lisboa, sem listas de espera nem obstáculos, que o diga!
Manuel Catarino

Nuno Rebelo de Sousa, diretor da EDP no Brasil, vive há década e meia em São Paulo. Desdobra-se, hiperativo, em iniciativas. É presidente da Câmara de Comércio Portuguesa de São Paulo. Não há negócio que ele não conheça: influencia, facilita, abre portas, ajuda. Não se livra da fama de ter mexido os cordelinhos em favor de duas bebés luso-brasileiras que precisavam de tomar em Portugal o medicamento mais caro do mundo e que custou cerca de quatro milhões de euros ao Serviço Nacional de Saúde.

As meninas foram tratadas no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, sem filas de espera nem contrariedades. Nuno é um bom coração, um autêntico samaritano capaz de dar a camisa que tem no corpo.

O amigo Nuno Vasconcelos, o empresário que se instalou em São Paulo após o seu pequeno império – a Ongoing – ter soçobrado em dívidas de centenas de milhões de euros, é testemunha da bondade desinteressada do filho do Presidente Marcelo. “Não me admirava nada que tivesse sido ele a ajudar essa família. É um homem solidário e generoso, tal como o pai, que conheço muito bem desde criança. Ajuda toda a gente com necessidades”, diz aos nossos repórteres.

Daniela Martins abalou de São Paulo com as duas filhas bebés, gémeas, luso-brasileiras, e apresentou-se sem consulta marcada, em finais de 2019, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. As meninas sofrem de atrofia muscular espinhal – uma doença neurodegenerativa, provocada por um gene defeituoso, que só pode ser tratada com um medicamento chamado Zolgensma. O remédio é conhecido como o mais caro do mundo e a única arma da medicina contra a atrofia muscular espinhal.

O serviço de neuropediatria de Santa Maria, coordenado por Levy Gomes, recusou a administração do tratamento. As meninas já tinham sido tratadas no Brasil com outros fármacos e, muito provavelmente, o Zolgensma perderia eficácia. O remédio caro não era uma opção clínica. Mas a mãe das meninas, Daniela Martins, viajou do Brasil com uma ‘cunha’ de peso – de tal maneira valorosa que a administração do hospital, então presidida por Daniel Ferro, e o diretor clínico, Luís Pinheiro, autorizaram o tratamento.

Mais ou menos por esta altura, Portugal comoveu-se com o caso de Matilde – uma bebé portuguesa, de três meses, que também sofria de atrofia muscular espinhal. O Serviço Nacional de Saúde hesitava em disponibilizar o medicamento. O país mobilizou-se e os pais de Matilde conseguiram angariar o dinheiro, quase dois milhões de euros, para pagarem o milagroso Zolgensma.

A história das meninas luso-brasileiras tratadas em Lisboa foi relatada no programa de informação ‘Exclusivo’, na TVI. A mãe das bebés, Daniela Martins, apanhada por uma câmara oculta, confessou que teve a sorte de ter conhecido a nora brasileira de Marcelo Rebelo de Sousa. São colegas de trabalho, na MDS, uma importante corretora portuguesa de seguros com escritórios no Porto, em Luanda, em Maputo e em São Paulo. A totalidade do capital da companhia, maioritariamente na posse da Sonae, da família Azevedo, foi vendido há dois anos, por 100 milhões de euros, ao grupo de corretagem britânico The Ardonagh.

Nuno Rebelo de Sousa era casado com Rita Sousa Coutinho. Um namoro desde os tempos da Universidade Católica, onde se formaram em Gestão. Marcelo era amigo da família Sousa Coutinho. A mãe de Rita foi uma das primeiras mulheres gestoras em Portugal: lançou no nosso país, ainda antes do 25 de Abril, a cadeia de supermercados Pão de Açúcar. A filha seguiu-lhe as pisadas na gestão. Rita e o marido, quadro da EDP, mudaram-se para São Paulo.

O casamento desmoronou-se há meia dúzia de anos. Nuno tomou-se de amores por uma secretária da direção de relações institucionais da EDP. Rita Sousa Coutinho não lhe perdoou a traição: exigiu o divórcio – e partiu para a China, ao serviço da rede americana de hipermercados Walmart, com os quatro filhos do casal, Francisco, Maria Teresa, Maria Madalena e Maria Luísa. O avô Marcelo ficou inconsolável: “Lido mal com as saudades, muito mal. Quando eles estavam no Brasil, as saudades já eram imensas. Agora que estão China, são ainda piores”, lamentou-se o Presidente à revista Caras.

Rita, entretanto, fundou a Ocean, Participações, Investimentos e Consultoria – uma companhia dedicada ao desenvolvimento dos negócios de retalho com interesses na China, no Brasil, em Portugal e nos Emiratos Árabes Unidos. Nuno Rebelo de Sousa manteve-se em São Paulo, sempre ao serviço da EDP.

A mulher, de quem tem uma filha, Maria Eduarda, de seis anos, saiu da EDP e empregou-se na corretora MDS – onde Daniela Martins em boa hora a conheceu: não fosse isso e, muito provavelmente, as filhas não teriam direito ao tratamento em Lisboa. Nuno Rebelo de Sousa, amigo de ajudar o próximo, terá tratado de tudo. O pai não se lembra de alguma vez ter falado com o filho sobre o assunto – mas garante que não falou com ninguém. Limitou-se a reencaminhar uma carta para os gabinetes do primeiro-ministro e do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas. Mas Marcelo, que fala sobre tudo e mete-se em tanta coisa, por vezes, confunde-se e mete os pés pelas mãos.

Tal carta, segundo o chefe da sua Casa Civil, Fernando Frutuoso de Melo, não era propriamente uma carta – mas dois relatórios médicos enviados do Brasil que deram origem a uma carta que ele próprio redigiu e enviou para aqueles dois gabinetes oficiais. A cartinha, por voltas do destino, foi parar ao Ministério da Saúde. A secretária da ministra, Marta Temido, e o secretário de Estado Lacerda Sales interessaram-se pela sorte das bebés, tantos foram os telefonemas para o serviço de neuropediatria do Hospital de Santa Maria.

Às vezes, mais vale cair em graça do que ser engraçado. Quem tem a graça de um bom empenho está governado.