DIRECTOR: JORGE LEMOS PEIXOTO  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

O ovo na legalidade

Acabo de ler no jornal. É a mais completa reabilitação de um suposto criminoso na história da humanidade. O ovo – o querido ovo, o fruto da galinha (às vezes, com a participação do galo como astro convidado), objeto cujo design é uma maravilha de projeto e acabamento – volta ao círculo social depois de décadas como inimigo público nº 1.

Durante quase toda a segunda metade do século XX e até há pouco, médicos, cientistas e nutrólogos dedicaram-se a acusar o ovo dos piores crimes contra o corpo humano e a responsabilizá-lo pela elevação do colesterol a números de basquete americano, coronárias entupidas, pressão na estratosfera, cários, calos etc. Quem estivesse com os índices em perigo, que não chegasse nem perto; quem não estivesse, idem, para se prevenir. Às galinhas – e nem lhes adiantava cacarejar em protesto –, só restava submeter-se ao holocausto reservado à sua espécie e ao opróbrio para o seu produto. 

Pois, de algum tempo para cá, depois de pesquisas mais profundas, esses mesmos médicos começaram a emitir sinais de que talvez tivessem sido injustos com o ovo. E saiu o relatório, espero que definitivo, da Universidade de Surrey, na Inglaterra, segundo o qual o ovo não faz o menor mal à saúde – ao contrário, é riquíssimo em nutrientes – e pode ser comido na legalidade e em qualquer quantidade. Só faltaram dar-lhe a medalha de alimento do ano. 

Ótimo, ótimo, donde vamos aos ovos dia sim, dia não, ou duas ou quatro vezes por dia. Mas ocorre-me a pergunta: e nós, que sempre fomos loucos por ovos – fritos, cozidos, estrelados, mexidos (com ou sem bacon) ou em omeletas – e tivemos de nos privar deles por décadas? Como ficamos? Eu, por exemplo, a uma média de três por semana, quantos ovos não deixei de comer nos últimos 30 anos? Se medido em graus de deleite, prazer ou quase orgasmo do paladar, a quanto não montará meu prejuízo?

Assim como certos países e regimes políticos pediram perdão póstumo às populações que dizimaram, a comunidade científica deve um pedido de desculpas a nós, ovíparos – que não sei se lhe concederei. E só não lhes atiro ovos à cara porque esse é o único uso que não recomendo ao produto – por respeito às galinhas, que sabem muito bem o quanto lhes custou botá-los para fora.

Ruy Castro