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Será este o próximo cardeal?

Acarinhado pelo poder político e promovido pela comunicação social, D. Américo Aguiar parece talhado para suceder a D. Manuel Clemente, fragilizado por uma alegada falha num caso de abuso sexual e a um ano de apresentar a sua resignação ao Papa Francisco.
Repórter T&Q

Se a ânsia de protagonismo fosse desvantagem, as ambições hierárquicas de D. Américo Aguiar, atual bispo-auxiliar de Lisboa, estariam seriamente comprometidas. Este prelado, a quem o favorecimento de D. Manuel Clemente, a simpatia dos políticos e a benevolência da comunicação social têm vindo a augurar “um futuro promissor”, não esconde a sua ambição: vir a ser Cardeal-Patriarca de Lisboa. É certo que não o afirma explicitamente (isso ser-lhe-ia fatal), mas sempre que o assunto vem à baila o seu único comentário é um sorrisinho que não engana.

A controvérsia que nos últimos dias se levantou a propósito de um alegado abuso sexual por um sacerdote da Diocese e que D. Manuel Clemente não teria comunicado às autoridades (apesar de só ter tido conhecimento dos factos trinta anos depois e de a própria vítima não querer apresentar queixa) veio colocar o Patriarcado sob a luz forte dos holofotes da opinião pública, precisamente a um ano da idade da “reforma”.

O atual Patriarca completará 75 anos em 16 de julho de 2023. Canonicamente, deverá entregar então ao chefe supremo da Igreja a sua resignação – se outras circunstâncias não a apressarem. Quem poderá suceder-lhe no cargo?

A pergunta anda no ar e tem dado azo a muita especulação nos bastidores da hierarquia católica. As fontes do T&Q no Patriarcado garantem, contudo, que apenas dois prelados estão em condições de chegar à final: o angolano-transmontano D. José Cordeiro e o tripeiro D. Américo Aguiar.

José Cordeiro, de 55 anos, teria, em circunstâncias normais, a preferência papal. Depois de desempenhar vários cargos paroquiais e diocesanos em Portugal, viveu durante 12 anos em Roma, junto do Vaticano, onde foi reitor do Pontifício Colégio Português e professor na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino e no Pontifício Instituto Litúrgico. Nomeado bispo de Bragança-Miranda pelo Papa Bento XVI, regressou a Portugal, sendo entretanto promovido a arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, o mais prestigiado título episcopal português.

Mas as circunstâncias não são normais. Com a resignação de Bento XVI e a eleição de Francisco, o Vaticano adotou uma intensa agenda mediática, preferindo o sucesso comunicacional à experiência ou sobriedade. É neste quadro que ganha relevo a figura de D. Américo Aguiar, de 48 anos, que teve breve passagem pela paróquia de Campanhã antes de ser nomeado secretário episcopal. D. Manuel Clemente conheceu-o aí, quando foi titular daquela Diocese, e desde então tem patrocinado a sua carreira eclesiástica. Especializando-se em ‘public relations’, D. Américo foi feito diretor do Secretariado das Comunicações Sociais e do Departamento da Comunicação do Patriarcado de Lisboa por D. Manuel Clemente, entretanto elevado ao cardinalato. Chamado a Lisboa, D. Américo foi nomeado bispo auxiliar pelo Papa Francisco.

Na cerimónia da sua ordenação episcopal, em Março de 2019, esteve presente a nata do poder socialista, a começar pelo casal Costa, passando por Fernando Medina e acabando em José Luís Carneiro. Entre as centenas de convidados tripeiros destacavam-se Rui Moreira e Pinto da Costa. Em declarações às várias televisões que ali acorreram, todos sublinharam o “futuro promissor” de D. Américo.

A um ano de ter de resignar ao cargo por limite de idade, D. Manuel Clemente tem vindo a fazer referências que indicam um claro favoritismo em relação ao seu bispo-auxiliar. Falando sobre a Jornada Mundial da Juventude, que terá lugar em Lisboa dentro de um ano e a cuja organização D. Américo preside, D. Manuel Clemente afirmou: “Lisboa vai precisar de um bispo a condizer com essa juventude toda”, de “um Patriarca mais jovem”.

Mas a proteção do atual Cardeal-Patriarca poderá não ser suficiente. Contra D. Américo são invocadas duas razões nos bastidores da hierarquia: a exuberante ambição do jovem prelado e a sua excessiva ligação ao “bloco central” da política portuguesa, com destaque para o PS. A exibição de sinais exteriores de deslumbramento, como os fatos de requintado tecido e melhor corte ou o relógio Rollex que gosta de agitar no pulso esquerdo, enquanto conversa, tem-lhe valido também alguns detratores entre o clero mais circunspecto.

Segundo as nossas fontes, as hesitações serão ultrapassadas pela grande “vontade política” de fazer a balança inclinar-se para D. Américo. A menos que ser protegido de D. Manuel Clemente se torne, de um momento para o outro, uma desvantagem de peso…