DIRECTOR: JORGE LEMOS PEIXOTO  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Serra da Estrela: os erros pagam-se caro

A Serra da Estrela é o maior ícone montanhoso nacional — o maior parque natural, com mais de 88 mil hectares; o maior centro hidrológico nacional, com uma fauna e flora únicas no Mundo. Quando me levantava ou saía de casa era sempre um museu visual da natureza, com tonalidades únicas desde o verde primaveril ao manto branco da neve. Com a catástrofe dos incêndios florestais, metade da área do parque natural foi reduzida a cinzas.

Entre 2017 e 2022, os incêndios florestais devoraram cerca de 45 mil hectares, pondo em risco a fauna, flora, a riqueza hidrológica e a estabilidade dos solos. O queijo da serra, um dos melhores do Mundo, é filho da fauna da ovelha bordaleira e da flora herbácea que a alimenta.

Com a desertificação acelerada, os incêndios florestais e as alterações climáticas das mais de 300 mil ovelhas bordaleiras, estamos reduzidos a cerca de 100 mil e o verdadeiro queijo da serra foi substituído pelo queijo ‘tipo Serra’, produzido com leite em pó importado da Nova Zelândia ou com leite importado de Espanha.

O maior centro hidrológico, onde nascem o rio Mondego, o maior rio nacional, o Zêzere, o Alva e o de Alvoco — que abastecem de água Coimbra, Lisboa e muitas mais cidades, vilas e aldeias — está em elevadíssimo risco de poluição com a lavagem das cinzas para o leito dos rios e o arrastamento de terras, com as chuvas de Inverno.

Os erros cometidos na gestão da floresta do parque natural pagam-se caro. Os carvalhos, que eram os reis da montanha, os castanheiros, as faias, as azinheiras, os sobreiros, as coníferas, o freixo, os amieiros nas linhas de água — espécies florestais que resistiam ao fogo —, e as herbáceas que alimentavam os prados para as ovelhas bordaleiras foram substituídos, por desleixo, ganância e ignorância, pelo pinhal e pelas acácias de regeneração natural, altamente invasoras e amigas do fogo.

A violação do ecossistema tradicional e a desertificação do parque natural, com as alterações climáticas, garantiram que a Serra verdejante fosse reduzida a cinzas.

É urgente minimizar a tragédia e aprender a lição, começando por retirar o material lenhoso ardido, cortando-o a meio metro de altura, para que troncos e raízes ajudem a estabilizar os solos, evitando os deslocamentos de terra, e retirando a carga de biomassa, para evitar incêndios futuros. É urgente recomeçar a reflorestação com as espécies tradicionais ligadas ao ecossistema, principalmente com as folhosas, que enriquecem os solos e preservam os aquíferos hídricos.

A Serra da Estrela é um paraíso nacional da natureza destruído pela passividade política, pela ganância e ignorância humana. Um paraíso que percorri com Mário Soares, que o conhecia como ninguém da sua juventude, por causa da asma, ou com Miguel Torga, à caça, que adorava Folgosinho. Quantas vezes ficava encostado à capela de Nossa Senhora de Assedasse a vê-lo calcorrear aqueles desfiladeiros atrás das perdizes que tinham voos de quilómetros, ou de um Carnaval que fui passar à Serra e lá fiquei retido uns dias bloqueado pela neve. Hoje, aqui do meu mirante, olho-a diariamente com enorme tristeza e revolta.

António Campos