Os gatos-pingados das limpezas

Os gatos-pingados das limpezas

Janeiro 1, 2018 0 Por Tal & Qual
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Uma empresa portuguesa, inspirada em filmes americanos, fez-se anunciar em tétricos cartazes publicitários beira das autoestradas de acesso a Lisboa: ao lado da silhueta de um cadáver, a frase “Limpamos locais de morte”. Fomos ver quanto custa

Manuel Catarino

Limpam a cena dos crimes de sangue

Por uma noite de domingo, quente e abafada, Raquel e João Gouveia chegaram a casa, no bairro lisboeta dos Olivais, após um fim de semana prolongado passado fora. João, inspetor-chefe de uma brigada de homicídios da Polícia Judiciária, foi fumar à marquise das traseiras. Reconheceu duas ou três gordas varejeiras – insetos que são atraídos por corpos em decomposição e costumam esvoaçar alegres em locais de crime. Não teve dúvidas e bradou à mulher: – “Raquel, liga à PSP. A vizinha de cima está morta há três dias”. 

Ainda não existia a ‘Deathclean’ – ‘limpeza da morte’ – uma empresa criada há 13 anos. Pedro Badoni fazia vida nos Estados Unidos quando viu o filme ‘Cleaner’, em que Samuel L. Jackson limpava cenas de crime. Saiu-lhe então a ideia de fundar em Portugal uma equipa de gatos-pingados da faxina: limpam tudo o que cheira a morte e que poucos se atrevem a limpar.

Milhares de condutores já se depararam com brutos painéis publicitários na A2 e na A5, à entrada de Lisboa, e no IC 19, na zona de Queluz. São sinistros. Exibem a frase “Limpamos locais de morte” ao lado da tétrica silhueta de um cadáver 

Estes limpadores aventuram-se pelos locais onde foram cometidos homicídios brutais: entram equipados como astronautas, fatos especiais dos pés à cabeça, máscaras na cara, cabeça coberta, luvas – e enfrentam sangue já seco, líquidos libertados por corpos em decomposição, cheiro nauseabundo da putrefação. 

No caso da vizinha do inspetor Gouveia não foi necessário ir atrás do homicida. Foi uma morte sem mistério. A senhora, já idosa, desvaneceu de causas naturais. Quando arrombaram a porta do apartamento, polícias e bombeiros precipitaram-se com nojo escadas abaixo – tal o cheiro repugnante que se esvaiu do interior da casa. Nestes ambientes pestilentos Paulo Badoni sente-se em casa. 

Até os inspetores da brigada de homicídios da PJ, chegados horas depois, tiveram dificuldade em entrar, mesmo equipados a preceito – e o que viram, e eles já viram muita coisa, fê-los arrependerem-se da carreira nos homicídios. O abdómen do cadáver, de tanto inchar por causa da acumulação de gases, explodiu num lançamento de vísceras e líquidos contra as quatro paredes do quarto. O faxineiros da ‘Deathclean’ teriam ficado surpreendidos com o que iriam encontrar neste de morte. É por isso que a empresa não tem uma tabela de preços. Cobra conforme o que houver para limpar.

Milhares de euros

O trabalho mórbido da ‘Deathclean’ não é para qualquer um – mas o serviço prestado também não está ao alcance de todos as carteiras. É caro. O Tal&Qual avaliou a tabela de preços com dois telefonemas. 

O primeiro, dava conta de um homicídio numa aldeia a cerca de 60 quilómetros de Lisboa. A história, previamente ensaiada, comoveu a simpática telefonista no outro lado do telefone – que se desfez em dor e lamentos. A Polícia levou todo o dia a fazer as perícias de lei, o corpo fora removido, retiradas e a casa, por fim, devolvida à família. Era necessário limpar tudo – um rasto de sangue, longo corredor fora, por onde o corpo fora arrastado, e uma poça de sangue num quarto dos fundos onde a vítima ficou a sangrar até à morte. Quanto custa a limpeza?

A ‘Deathclean’ não pratica preços fixos. É conforme a quantidade de vestígios a remover. Explicou que os “vestígios biológicos” são “perigosos e causadores de doenças”. Obrigam à utilização de “desinfetantes especiais”. 

Os interessados no serviço têm que pagar á cabeça 150 euros. O valor corresponde à deslocação do técnico – que fará um orçamento de acordo com o local. Mas até quanto pode chegar o preço? A telefonista está treinada para não arriscar uma estimativa. Ainda assim, lá se descose: “Pode ser dois mil euros, quatro, cinco – e até pode chegar aos 10 mil. Depende daquilo que o técnico encontrar”. Se o cliente aceitar o orçamento, os 150 euros são descontados na fatura final. Caso contrário, o dinheiro está perdido. 

Os preços praticados pela ‘Deathcleaner’ estão pela hora da morte.

“Cuidado com a multa”

O segundo telefonema foi para pedir os serviços da ‘Deathclean’ numa velha casa de Alfama, em Lisboa. Um suicídio. O corpo só foi descoberto dois dias depois. A funcionária de serviço, tal como a colega anterior, desdobrou-se a dar “sentidos pêsames”. Quis saber como tive conhecimento da empresa – se através dos ‘outdoor’, se por indicação da Polícia. 

A deslocação do técnico a Alfama ficava por 100 euros. E só ele, após cuidadosa análise da casa a limpar, poderá fazer um orçamento. O trabalho, para ficar perfeito, pode facilmente chegar aos cinco mil ou dez mil euros: “Este tipo de limpezas não pode ser feito por amadores. Isto não é uma vulgar limpeza doméstica. Somos uma empresa altamente especializada”. 

Deixa um simpático alerta para o perigo dos resíduos recolhidos de um “local de morte” – que não podem ser despejados nos contentores de lixo doméstico. Além de ser um perigo para a saúde pública – é verdade! – a multa “vai até aos 20 mil euros”. Mais uma razão – diz ela – para recorrer à ‘Deathclean’: “Os clientes ficam uma guia passada pela empresa para, no caso de serem interpelados pelas autoridades, provarem que os resíduos tóxicos foram encaminhados para a incineradora”.

Em Portugal não há assim tantos casos de homicídios em residências – e não é certo que a ‘Deathclean’ acorra aos poucos que acontecem. A empresa dedica-se, por isso, a limpezas industriais e a desinfeções várias. 

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