DIRECTOR: BRUNO HORTA  |  FUNDADOR: JOAQUIM LETRIA

Um país em série

Portugal parece mover-se por vagas de imitação, sobretudo nos grandes centros urbanos onde se concentra a imbecilidade na sua forma mais pura.

Abre numa rua uma loja para vender meias às riscas; em pouco tempo abre, em frente, outra loja para vender meias às riscas; e ao lado, logo depois, mais uma loja de meias às riscas. Três meses depois foram todas à falência, por falta de clientes.

Podia falar das modas no vestuário, capítulo em que a imitação é quase obrigatória. Quilómetros e quilómetros de pano foram assim esbanjados no tempo das calças à boca de sino, só para andarmos todos de igual. As camisas às flores que então usávamos, acompanhadas dos correspondentes colarinhos de vinte centímetros, davam para forrarmos de malmequeres a Abbey Road e cobrirmos de terylene milhares de strawberry fields forever.    

Idêntico fenómeno, embora com menor esbanjamento de material, observa-se hoje à hora de saída para almoço dos empregados bancários: é vê-los, em fila indiana, muito direitinhos e muito magrinhos nos seus fatinhos que parece terem encolhido na máquina e já não cobrem sequer o tornozelo, a caminho do mesmo balcão da mesma coffeehouse onde vão comer a mesma merendinha bio com o mesmíssimo sumo de açaí vegan.

E no calçado? Tive resmas de amigos que passaram anos e anos a imitarem-se uns aos outros nos botins de camurça do MRPP especialmente indicados para fugir à polícia. Os tempos mudaram, mas não a massificação. Agora, parece que a grande moda, inaugurada pelo Sr. Costa, é o sapatinho de três fivelas (todas inúteis), já famoso entre os vendedores daquela etnia cujo nome não pode ser pronunciado e param às quintas na feira de Carcavelos.  

Na mesma feira de Carcavelos vi eu com estes que a terra há-de comer o terrível sucesso de massas dos cortes de cabelo à Ronaldo – algo que, confesso, até pode surpreender agradavelmente quem ainda vive traumatizado pela moda dos toucados popularizada pela Dona Maria de Belém e pela Dona Manuela.

Mais intensa e prolongada, mesmo, só a febre das rotundas, uma doença que há anos vem contaminando, um após outro, os 308 autarcas portugueses e se destina a empatar o trânsito onde este, sem as ditas rotundas, fluiria sem problemas. Ao lado, desenvolve-se agora a fixação nos “passadiços” e das “praias fluviais” – a mais recente modalidade de destruição da paz das aldeias do interior.

A tara do sushi domina ainda os jantarinhos de muitos casais da nata urbana que se juntam para comer peixe cru com molho de ácido sulfúrico só porque milhares de outros casalinhos estão a fazer o mesmo – precisamente a mesma nata urbana que anda há anos a cavalgar a onda do gin “com sabores”, uma alienação colectiva destinada a avacalhar uma bebida outrora deliciosa, quando não cavalga os seus SUVs preto-antracite iguaizinhos uns aos outros, de que aliás não precisa porque não tem casas remotas no campo e, em qualquer dos casos, a família caberia bem num Fiat Uno, e talvez até ficasse melhor servida e mais em conta.   

Lisboa ensandeceu há poucos anos com as trotinetes, mas nada que se compare à febre dos “plasmas”, essas armas de salão que servem para medir aparência de estatuto e presunção de conta bancária. E seria quase caso para duelo ao entardecer (“o meu plasma é maior do que o teu!”) se não se desse o caso de neles apenas passarem o mesmo enredo e a mesma trapaça, transmitidos em simultâneo por canais televisivos também iguais uns aos outros.

Não há pachorra!

 

Memória futura

E por falar em turismo de massas. Depois de tudo o que temos visto, sobretudo nas últimas semanas, dei comigo a pensar que devo ser o único português que nunca tirou uma ‘selfie’ com o Presidente Marcelo e nunca trocou com ele uma bacalhauzada ou uma palmadinha nas costas. Já agora, para memória futura: nunca confraternizei com ele, nunca lhe dirigi a palavra, nem ele a mim, nunca estive com ele na mesma sala, não ponho pé em Belém há 26 anos, nunca lhe escrevi ou telefonei, nem ele a mim, nunca ri com ele a bandeiras despregadas a propósito de coisa nenhuma, nunca trabalhei com ele, nem para ele, nem ele para mim, e nunca votei nele. Lavo daí as minhas mãos.

Jorge Morais

Carta da Aldeia

Jorge Morais